Pesquisa inédita testa estratégia de profilaxia pós-exposição a ISTs bacterianas no Brasil

Uma nova estratégia de prevenção contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) bacterianas começa a ser investigada no Brasil por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. O estudo DoxiPEP-SP avalia a eficácia e a segurança do uso da doxiciclina como profilaxia pós-exposição — conhecida como DoxiPEP — para prevenir infecções como sífilis, clamídia e gonorreia em populações mais vulneráveis. Agência de Notícias da Aids
Embora estudos internacionais recentes indiquem que a estratégia pode reduzir significativamente a incidência dessas infecções, ainda não existem dados nacionais sobre sua implementação em condições reais de uso. A pesquisa brasileira pretende preencher essa lacuna e fornecer evidências científicas para subsidiar políticas públicas de prevenção.
Atualmente, o uso da DoxiPEP não possui recomendação oficial do Ministério da Saúde.
O que é a DoxiPEP e por que ela desperta interesse científico
A profilaxia pós-exposição com doxiciclina consiste na administração do antibiótico após relações sexuais com risco de exposição a ISTs bacterianas. A estratégia tem sido estudada principalmente entre pessoas com maior vulnerabilidade às infecções, especialmente aquelas que já utilizam a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP).
Pesquisas internacionais apontam reduções importantes na incidência de sífilis e clamídia e resultados mais variados para gonorreia, levantando interesse da comunidade científica global sobre seu potencial como ferramenta adicional de prevenção.
Especialistas destacam, porém, que ainda existem questões importantes a serem respondidas, como possíveis impactos no microbioma humano, no desenvolvimento de resistência bacteriana e nas mudanças de comportamento sexual associadas ao uso do medicamento — aspectos que o estudo brasileiro pretende investigar.
Primeiro estudo nacional em contexto de vida real
Coordenado pelo Centro de Pesquisa Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o estudo DoxiPEP-SP busca avaliar a eficácia preventiva da estratégia no contexto brasileiro, considerando fatores sociais, epidemiológicos e comportamentais específicos do país.
A pesquisa irá avaliar a eficácia da DoxiPEP na prevenção de ISTs bacterianas; monitorar impactos no microbioma e no resistoma humano por análise metagenômica; investigar a adesão ao uso dos comprimidos; avaliar a aceitabilidade da profilaxia entre participantes; observar possíveis mudanças no comportamento sexual; registrar eventos adversos associados ao uso do antibiótico.
Os pesquisadores também pretendem acompanhar os participantes por um período prolongado, permitindo uma análise mais abrangente sobre segurança e efetividade.
Quem pode participar da pesquisa
O estudo inclui grupos considerados prioritários nas estratégias de prevenção por apresentarem maior vulnerabilidade epidemiológica às ISTs:
* homens cisgênero gays e bissexuais;
* mulheres trans e travestis;
* mulheres cisgênero trabalhadoras do sexo.
Segundo os organizadores, a participação é voluntária e sigilosa.
A inclusão de mulheres cisgênero — ainda pouco representadas em pesquisas internacionais sobre DoxiPEP — é um dos diferenciais da investigação brasileira e pode ampliar o conhecimento científico sobre a estratégia em diferentes populações.
Impacto para políticas públicas e saúde coletiva
O objetivo central do DoxiPEP-SP é produzir evidências que orientem decisões em saúde pública no país. Os dados gerados poderão contribuir para avaliar a viabilidade da implementação da profilaxia no Sistema Único de Saúde (SUS) e apoiar futuras recomendações nacionais.
Os pesquisadores destacam que compreender o uso da DoxiPEP no contexto brasileiro é essencial diante do aumento global das ISTs bacterianas e da necessidade de ampliar estratégias de prevenção combinada.
Caso se confirme como segura e eficaz, a tecnologia poderá representar uma nova ferramenta no enfrentamento dessas infecções, complementando medidas já existentes como testagem regular, tratamento precoce, uso de preservativos e prevenção do HIV.
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