Adversários na segunda fase do Mundial, os dois países vivem momentos distintos na resposta ao HIV. Enquanto especialistas argentinos alertam para o impacto da redução de investimentos em prevenção e assistência, Cabo Verde aguarda a certificação da OMS pela eliminação da transmissão vertical do vírus. Redação da Agência de Notícias da Aids
Argentina e Cabo Verde entram em campo nesta sexta-feira (3), em Miami, valendo uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Favorita ao bicampeonato consecutivo, a seleção argentina chega embalada após vencer os três jogos da fase de grupos. Do outro lado, Cabo Verde continua escrevendo um dos capítulos mais surpreendentes desta edição ao alcançar, logo em sua estreia em Mundiais, uma inédita classificação para o mata-mata.
Mas, além da disputa pela sobrevivência na Copa, as duas seleções representam realidades bastante diferentes em outra competição de longa duração: o enfrentamento ao HIV.
Enquanto a Argentina busca preservar décadas de políticas públicas reconhecidas internacionalmente diante de cortes orçamentários e mudanças administrativas, Cabo Verde se aproxima de um marco histórico na saúde pública ao pleitear a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV.
São dois caminhos distintos que mostram como os avanços contra a epidemia exigem investimento contínuo, compromisso político e acesso permanente à prevenção e ao tratamento.
Argentina construiu uma das respostas mais sólidas da América Latina
Poucos países latino-americanos acumulam uma trajetória tão consistente no enfrentamento ao HIV quanto a Argentina.
Ainda em 1990, o país aprovou uma legislação considerada pioneira na região, garantindo confidencialidade, combate à discriminação e acesso universal à assistência para pessoas vivendo com HIV.
Em 1996, incorporou a terapia antirretroviral ao sistema público de saúde e, nas décadas seguintes, ampliou políticas de prevenção com distribuição gratuita de preservativos, programas de redução de danos e fortalecimento da participação das organizações da sociedade civil.
Mais recentemente, em 2022, passou a oferecer a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) pelo sistema público e aprovou uma nova legislação que ampliou direitos das pessoas vivendo com HIV.
Hoje, cerca de 140 mil argentinos vivem com o vírus, mantendo o país entre as principais referências latino-americanas na resposta à epidemia.
Cortes acendem alerta
Nos últimos dois anos, porém, organizações da sociedade civil e pesquisadores passaram a demonstrar preocupação com mudanças promovidas pelo governo do presidente Javier Milei.
O orçamento destinado ao Programa Nacional de Resposta Integral ao HIV, Hepatites Virais, ISTs e Tuberculose sofreu redução de 76% em 2024, primeiro ano da atual gestão.
Os impactos começaram a aparecer rapidamente. Entre 2023 e 2024, a distribuição de preservativos caiu 58,4%.
Já em janeiro de 2025, aproximadamente 40% dos profissionais vinculados ao programa nacional foram desligados.
Ao mesmo tempo, estruturas responsáveis por áreas estratégicas da saúde pública foram extintas durante a reorganização administrativa promovida pelo governo.
A principal preocupação é que a diminuição dos investimentos comprometa justamente as ações preventivas que permitiram ao país controlar a epidemia nas últimas décadas.
A epidemia permanece concentrada em populações vulneráveis
Apesar dos avanços históricos, a epidemia argentina continua afetando de forma desproporcional determinados grupos. Homens que fazem sexo com homens representam aproximadamente 45% dos casos, com prevalência estimada em torno de 12%.
Entre pessoas trans, a situação permanece ainda mais preocupante: a prevalência supera 30%, uma das mais elevadas da América Latina.
As relações heterossexuais respondem por cerca de 40% das novas infecções.
Cabo Verde transforma um pequeno arquipélago em referência internacional
Se a Argentina busca preservar conquistas históricas, Cabo Verde vive um momento de expectativa.
Com pouco menos de quatro mil pessoas vivendo com HIV, o arquipélago africano está prestes a alcançar um feito que poucos países conseguiram.
Segundo dados do Unaids e do Ministério da Saúde, aproximadamente 3.900 pessoas vivem com HIV no país. Atualmente 80% conhecem o diagnóstico; 82% recebem tratamento antirretroviral; e 69% alcançaram supressão viral.
A prevalência entre adultos de 15 a 49 anos é de 0,9%, uma das maiores entre os países de língua portuguesa, mas os avanços obtidos na prevenção materno-infantil colocaram Cabo Verde em posição de destaque internacional.
Um passo da certificação da OMS