Relatório aponta racismo estrutural, "graves discrepâncias" e pede investigação independente sobre ação policial mais letal da história do Brasil
Dezenas de corpos levados por moradores para praça na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, após ação policial | Eusébio Gomes/TV Brasil
Emanuelle Menezes - SBT
O
documento foi elaborado após visita da comissão ao Brasil, entre 1º e 5 de dezembro de 2025, quando uma delegação se reuniu com autoridades, especialistas, organizações da sociedade civil e familiares das vítimas, além de realizar inspeção nas áreas onde ocorreram os confrontos.
O relatório registra denúncias de execuções extrajudiciais, tratamento indigno de pessoas mortas e falhas na preservação das cenas de crime, além de possíveis violações ao direito à vida, à integridade pessoal e às garantias judiciais.
A comissão afirma que a operação deve ser analisada dentro de um contexto estrutural de desigualdade, estigmatização e violência contra moradores de favelas, territórios que concentram populações majoritariamente afrodescendentes e historicamente expostas à exclusão social.
Segundo a CIDH, esse cenário alimenta práticas de perfilamento racial e policiamento discriminatório, em que jovens negros das comunidades são frequentemente tratados como suspeitos sem verificação.
O documento alerta ainda para a naturalização da morte em operações policiais nesses territórios, fenômeno associado ao que especialistas classificam como
necropolítica – quando determinadas populações passam a ser tratadas como descartáveis ou "matáveis" na gestão da política pública.
"Graves discrepâncias" entre mandados e resultados da operação
O relatório também aponta "graves discrepâncias" entre os objetivos anunciados pelo governo e os resultados da operação. Embora as autoridades tenham afirmado que a ação tinha como objetivo cumprir mandados judiciais contra integrantes de organizações criminosas, apenas 15 das 117 pessoas mortas eram alvos dessas ordens judiciais.
Além disso, o documento destaca que mais de 80% das detenções ocorreram em flagrante, e não durante o cumprimento dos mandados originalmente anunciados. Para a comissão, esses dados levantam questionamentos sobre a proporcionalidade da operação e o planejamento da ação policial.
Operação mais letal da história
No relatório, a comissão critica a narrativa de "sucesso operacional" baseada no número de mortes, destacando que a letalidade não é um critério legítimo de eficácia. Após a operação, Castro triplicou o número de seguidores nas redes sociais, o que, para a CIDH, indica a "normalização da morte" como instrumento político.
A comissão também destacou que episódios como esse ocorrem em um contexto histórico de operações policiais de alta letalidade nas favelas do Rio de Janeiro, marcado por dificuldades na investigação e responsabilização de agentes envolvidos em mortes.
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