Sono ruim, aumento da cintura, falhas de memória, queda de libido e perda de força mereceM atenção antes que o corpo comece a cobrar a conta
** Alessandra Bedin Pochini é ginecologista, obstetra e nutróloga
Brazil Health*sbt
Especialista explica sobre sintomas e tratamentos na menopausa | Freepik
A mulher raramente chega ao consultório dizendo “estou no climatério”. Ela chega dizendo que não dorme como antes, que acorda cansada, que esquece palavras, que perdeu rendimento, que a cintura aumentou, que a libido mudou, que o treino não funciona mais ou que os exames começaram a sair do lugar.
M uitas vezes, ouve que isso é normal da idade. Mas normal não significa irrelevante. A menopausa é definida depois de 12 meses sem menstruar. O corpo, porém, começa a mudar antes. Essa transição pode afetar sono, humor, memória, sexualidade, composição corporal, saúde óssea, circulação, metabolismo e risco cardiovascular. Com o aumento da longevidade, muitas mulheres viverão um terço ou quase metade da vida após a menopausa. Por isso, a pergunta deixou de ser apenas como aliviar sintomas. Hoje, o desafio é atravessar essa fase preservando vitalidade, autonomia e qualidade de vida.
Os sinais que merecem atenção
Os sintomas mais conhecidos são as ondas de calor e os suores noturnos. Eles podem ser leves, mas também interromper o descanso várias vezes por noite. A mulher acorda exausta, fica mais irritada, sente mais fome, treina pior, trabalha pior e, muitas vezes, acha que o problema é falta de disciplina.
Também entram nessa fase ressecamento vaginal, dor na relação, urgência urinária, infecções de repetição, queda de libido, oscilação de humor, ansiedade, tristeza, fadiga e a sensação de que o corpo não responde mais como antes.
Há sinais ainda mais sutis. Dificuldade de concentração, esquecimento de palavras e sensação de mente lenta são queixas frequentes. Isso não significa que toda falha de memória seja sinal de demência. Na maioria das vezes, há uma combinação de fatores: sono fragmentado, sintomas vasomotores, alterações emocionais, álcool, apneia, medicamentos, deficiências nutricionais, disfunções tireoidianas ou alterações metabólicas.
O erro é tratar tudo como psicológico. O outro erro é tratar tudo como hormônio. O bom cuidado começa quando se investiga a mulher inteira.
Quando a balança engana
Uma das mudanças mais importantes acontece em silêncio. O peso pode nem subir tanto no começo, mas a composição corporal muda: menos massa magra, mais acúmulo abdominal e maior medida de cintura. Essa mudança não é apenas estética. Com a queda do estradiol, o organismo perde parte de uma proteção que antes ajudava no controle do metabolismo, da circulação, do músculo e do fígado.
É por isso que obesidade, sedentarismo, noites mal dormidas e perda muscular pesam tanto nessa fase. Eles atuam sobre os mesmos pontos que ficam mais frágeis com a menopausa. Quando se somam, o risco deixa de ser apenas ganhar peso. Aumenta a chance de adoecer metabolicamente, perder força e acumular gordura hepática.
E gordura no fígado não é um achado banal de ultrassom. Quando progride, pode causar inflamação, aumenta o risco de doenças cardiometabólicas, fibrose e, em casos avançados, cirrose.
Emagrecer no climatério, portanto, não pode significar apenas perder peso. Uma mulher pode perder quilos e, ao mesmo tempo, perder músculo demais. Outra pode perder menos na balança, mas reduzir cintura, melhorar exames, dormir melhor e ganhar disposição. O segundo caminho costuma ser mais inteligente.
A estratégia precisa combinar alimentação de boa qualidade, ingestão adequada de proteínas, treino de força, atividade aeróbica, sono protegido, redução de álcool quando necessário e investigação de compulsão ou comer emocional. Em alguns casos, medicações antiobesidade bem indicadas podem ajudar, desde que façam parte de um plano que preserve função, não apenas reduza números.
Músculo também é saúde