Armazém na região de Kiev reunia preservativos, seringas, agulhas e outros materiais avaliados em mais de US$ 2,6 milhões; programas atendem mais de 300 mil pessoas por ano
Um ataque russo destruiu mais de 62 milhões de itens destinados à prevenção do HIV na Ucrânia e comprometeu o estoque preparado para os programas nacionais em 2027. O armazém atingido na região de Kiev, em 19 de julho, reunia materiais avaliados em mais de US$ 2,6 milhões e abasteceria iniciativas que alcançam mais de 300 mil pessoas por ano em diferentes regiões do país. Redação da Agência de Notícias da Aids
A destruição levou o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) a condenar publicamente o ataque e cobrar a proteção de instalações e insumos de saúde durante a guerra. Em comunicado divulgado em 1º de setembro, a agência das Nações Unidas alertou que os estoques precisam ser repostos com urgência para evitar interrupções nos serviços no próximo ano.
Segundo a Alliance for Public Health (Aliança para a Saúde Pública), organização responsável pela compra dos materiais, estavam armazenados no local mais de 30,5 milhões de seringas, 1,38 milhão de agulhas, 6,28 milhões de lenços com álcool, mais de 14,6 milhões de preservativos e 9,4 milhões de unidades de lubrificante, além de outros insumos utilizados nas ações de prevenção.
Apesar da dimensão da perda, os serviços não devem sofrer interrupção imediata. Em junho, antes do ataque, os materiais necessários para atender a demanda de 2026 haviam sido distribuídos antecipadamente entre organizações parceiras e serviços de saúde de diferentes regiões da Ucrânia. Com isso, há estoque suficiente para manter as ações até o final deste ano.
O problema está em 2027. De acordo com as organizações envolvidas na resposta ao HIV no país, o material destruído representava o estoque destinado às atividades do próximo ano e terá de ser novamente adquirido.
“Ataques a instalações médicas e suprimentos essenciais à saúde violam o direito humanitário internacional”, disse Winnie Byanyima, Diretora Executiva da Unaids. “Mesmo em tempos de guerra, existem regras. Instalações de saúde e suprimentos médicos jamais devem ser alvejados. Destruir suprimentos para a prevenção do HIV coloca vidas em risco, e eu preciso me manifestar.”
HIV em meio à guerra
O episódio ocorre em um país que mantém uma extensa rede de prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV mesmo sob os efeitos da guerra iniciada com a invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022.
Dados mais recentes do Centro de Saúde Pública da Ucrânia mostram que, em 1º de julho de 2026, 130.379 pessoas vivendo com HIV estavam registradas e acompanhadas pelos serviços de saúde, o equivalente a 318 casos por 100 mil habitantes. Desse total, 116.019 recebiam terapia antirretroviral, correspondendo a aproximadamente 89% das pessoas em acompanhamento.
Somente no primeiro semestre de 2026, foram registrados oficialmente 3.489 novos casos de HIV e 1.025 casos de aids. No mesmo período, 419 mortes foram atribuídas à aids. Os dados oficiais também mostram desigualdades regionais importantes: Dnipropetrovsk, Odesa e Mykolaiv, além da capital Kiev, continuam apresentando algumas das maiores taxas de prevalência de HIV do país.
A guerra acrescentou novas dificuldades a uma resposta de saúde pública que depende da continuidade do diagnóstico, da prevenção e do tratamento. Deslocamentos da população, danos à infraestrutura, interrupções de energia e ataques a unidades e estoques médicos têm aumentado a pressão sobre o sistema de saúde ucraniano.
Em maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que já havia verificado mais de 3 mil ataques contra a assistência à saúde na Ucrânia desde o início da invasão em larga escala, incluindo episódios envolvendo hospitais, centros de atenção primária, ambulâncias e armazéns de medicamentos e equipamentos.
O número continua crescendo. Em agosto, menos de um mês depois da destruição dos materiais de prevenção ao HIV, um armazém humanitário da própria OMS em Dnipro foi atingido repetidamente. O local guardava suprimentos destinados a serviços de saúde próximos às áreas de conflito.
Estoques precisam ser reconstruídos