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Alterações no sono e no apetite, irritabilidade, baixo limiar de frustração ou mesmo uma mudança de comportamento de alguém que era muito extrovertido e passa a se isolar. Esses sintomas poderiam ser de uma pessoa adulta, mas também são comuns em crianças e adolescentes com transtornos mentais. Mesmo aquelas em idades mais novas podem apresentar quadros de doenças como depressão e ansiedade. Correio24horas
Nos últimos anos, a saúde mental de crianças e adolescentes têm sido um dos pontos de atenção de profissionais de saúde. Em cinco anos, o número de internações de pessoas com idades entre 0 e 19 anos devido a transtornos mentais e comportamentais dobrou na Bahia: saiu de 237 em 2020 para 482 em 2024, o que representa um crescimento de 103%.
Esse número se destaca ainda mais quando comparado com todas as faixas etárias – de 0 a mais de 80 anos. No quadro geral, o aumento de internações foi de 40,6% (saiu de 4586 em 2020 para 6448 em 2024). Em 2025, só há dados disponíveis até novembro, mas crianças e adolescentes já somam 447 internações. Os números são do Sistema de Informações Hospitalares do SUS.
Segundo a psicóloga Bianca Reis, os índices têm preocupado profissionais desde os anos 2010 e, de forma mais expressiva, a partir dos anos de pandemia da covid-19.
“Crianças cada vez mais novas, na faixa dos seis aos 11 anos de idade, estão sendo diagnosticadas mais frequentemente com depressão. Na pandemia, isso já estava tendo uma ascensão, mas acabou tendo uma expressividade após 2020, com o uso excessivo de telas e redes sociais. Antes, falava-se que esse era um motivo para inflamar traços de transtornos de personalidade, mas hoje já se sabe que também é uma das causas”, explica ela, que é mestra em Família na Sociedade Contemporânea.
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicado em 2023 mostrou que a exposição excessiva a telas está relacionada a uma piora na saúde mental em todas as faixas etárias. No entanto, no caso específico de crianças, foi detectado um aumento de 72% de casos de depressão.
O tema é um dos focos do debate do Janeiro Branco, campanha nacional sobre promoção da saúde mental e emocional. Criada em 2014, a campanha tem como tema, em 2026, ‘paz, equilíbrio, saúde mental’.
Internação
A internação para o tratamento de transtornos mentais é recomendada em situações como quando há risco de morte para a própria pessoa ou para outros, mas também pode ser indicada quando o quadro é de tanta instabilidade que a criança ou adolescente não consegue cumprir minimamente a própria rotina.
“Muitas vezes, a internação é vista de forma preconceituosa e estigmatizada, mas é estruturante para que a pessoa possa retomar a vida dela”, pondera a psicóloga Bianca Reis.
Em um contexto de internação, o paciente tem contato com a família e é acompanhado por profissionais. Por vezes, a criança ou adolescente chega ao psicólogo ou psiquiatra com sintomas depressivos muito graves, além de sintomas físicos. São situações em que é possível reverter com psicoterapia próxima, ajuda familiar, acompanhamento psiquiátrico e mesmo abordagens como meditação.
“Mas se nada mudar em um determinado tempo, talvez a pessoa precise de internação. Muitas vezes, a gente pensa que a pessoa internada está quebrando tudo ou até desprezando a ordem social, mas não necessariamente. Às vezes, é alguém que está num estado depressivo, apático e de desesperança muito grande. Isso aparece até no próprio discurso: às vezes, a criança vai deixando de falar e, quando fala, diz que não quer melhorar”, alerta.
Alguns sinais podem ser indicativos para as famílias de que algo está errado, a exemplo de prejuízos na socialização. Uma criança que era muito engajada e envolvida em reuniões sociais e se torna mais reclusa, por exemplo, pode ser uma mudança de comportamento para ser observada.
“Mas não é para nenhum pai ou mãe se sentir culpado ou não. Converso muito com eles, porque é uma tarefa complexa e incrível ser pai e mãe. A pessoa já está tendo que lidar com as próprias crises pessoais e, ao mesmo tempo, tem a preocupação de enxergar as crianças como sujeitos. “A culpa está bem, mas o que a gente faz com ela é importante e ter rede de apoio é essencial”, acrescenta a psicóloga.
Por isso, a orientação dos especialistas é também que os pais ensinem os filhos a lidar com sentimentos mais profundos desde cedo. De acordo com o neurocirurgião André Ceballos, especialista em desenvolvimento infantil, a primeira infância, que vai até os seis anos de idade, é o momento ideal para isso.
Alguns pontos importantes para isso, segundo ele, são a criação de um ambiente seguro, em que a criança se sinta acolhida e protegida; uma comunicação aberta e rotinas equilibradas, que tenham momentos de aprendizagem, lazer e descanso.
“Priorizar a saúde mental na infância é um investimento a longo prazo. Pais e cuidadores podem fazer isso promovendo um ambiente acolhedor, sem julgamentos e aberto a conversas, onde os pequenos possam se desenvolver e ter suas escolhas, sentimentos e divergências respeitados ao longo de sua formação. Certamente, no futuro, eles se tornarão adultos saudáveis, felizes e confiantes”, explica o neurocirurgião.
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