Confira o alerta em artigo de Antônio Carlos de Araújo

Foto: Pexels
O tempo passa, surgem novas gerações e até mesmo os mais velhos tendem a esquecer o passado. O cacau já foi chamado de “fruto de ouro” e, durante muitos anos, foi o principal componente do Produto Interno Bruto do Estado da Bahia, representando mais de 50% do ICMS arrecadado e das exportações estaduais.
Após o pico de preços, em julho de 1977, a produção de cacau da África Ocidental começou a emergir de forma consistente, e os efeitos da relação oferta/demanda passaram a se refletir na Bolsa de Nova Iorque, estabelecendo um novo paradigma para a cacauicultura mundial. A ampliação contínua da oferta levou o cacau a uma espiral prolongada de queda de preços.
No início da década de 1990, os preços do cacau, em valores nominais, variavam entre 700 e 800 dólares por tonelada. Nesse período, praticamente todos os produtores já haviam empobrecido. Aqueles que ainda conseguiam manter algum nível adequado de tratos culturais dependiam de recursos provenientes de outras atividades. Para agravar o quadro, surgiu a vassoura-de-bruxa, que se alastrou rapidamente, favorecida exatamente pela falta de recursos para um controle cultural eficiente. Diante desse cenário, a situação da cacauicultura baiana tornou-se crítica. A grande crise do setor foi causada, principalmente, por um longo período de preços deprimidos, com contribuição adicional da vassoura-de-bruxa.
Desde então, não se verificou nenhuma mudança estrutural na tendência dos preços, apenas episódios pontuais, como a guerra civil na Costa do Marfim e eventos recentes em países da África Ocidental.
O produtor de cacau brasileiro precisa estar atento tanto ao mercado internacional — que baliza a Bolsa de Nova Iorque, muitas vezes sustentado por produção associada ao trabalho escravo e infantil — quanto ao mercado interno. No contexto mundial, a produção brasileira é irrelevante em termos de volume, e esse mercado encontra-se praticamente fora de controle. Já no mercado interno, composto por mais de 200 milhões de consumidores, o produtor brasileiro pode e deve contribuir para corrigir distorções históricas.
O declínio contínuo dos preços do cacau, observado a partir da segunda metade de 2025, já não cobre os custos de produção. Caso essa situação se prolongue, poderá ocorrer uma nova crise, e talvez não seja mais possível atribuir a responsabilidade à “vassoura-de-bruxa”. A diferença em relação ao passado é que, atualmente, os produtores estão mais atentos e organizados para dizer não ao deságio imposto pelo cartel formado pelas indústrias processadoras de cacau, que pagam aos produtores valores inferiores aos preços de Bolsa, além de se posicionarem contra a importação de cacau produzido com trabalho escravo e infantil e com risco de introdução de novas enfermidades nas lavouras brasileiras. Antonio Carlos de Araújo
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