Por Samuel Fernandes | Folhapress
Foto: Josemar Pereira / Bahia Notícias

A origem do Carnaval tem uma forte ligação com a tradição europeia e, por isso, acredita-se que a festa foi trazida à América Latina em meio à colonização da região. Na Europa, a festa marca o período pré-quaresma. Na Idade Média, por exemplo, esse era um momento de maior permissividade e suspensão de regras sociais punitivistas impostas pela Igreja Católica, afirma Samuel Araújo, professor da Escola de Música da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Segundo Araújo, embora regras do dia a dia não sejam completamente suspensas durante a folia, essa característica da festa se mantém até hoje, inclusive no Brasil. "Ocorre o relaxamento das normas sociais que organizam as relações sociais cotidianas", resume.
A conexão histórica do Carnaval brasileiro com a tradição europeia é vista não somente no período da festa, mas também na forma como ela ocorria. Até o século 19, a folia no Brasil era uma derivação do entrudo, brincadeira comum em Portugal que consistia em jogar água -e às vezes outros líquidos- em participantes nas ruas.
Mas esse modelo do Carnaval brasileiro começou a mudar no século 19. Martha Abreu, professora de história da UFF (Universidade Federal Fluminense) e da FFP/UERJ (Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), afirma que o entrudo foi perseguido por ser visto como uma festa bárbara. Por isso, para as elites brasileiras, era necessário civilizar a tradição.
"Para as elites, um dos problemas foi quando pessoas escravizadas começaram a gostar de fazer entrudo em cima dos senhores", afirma Abreu.
Além da suposta barbaridade associada ao entrudo, o objetivo de alterar a cara do Carnaval brasileiro no século 19 tinha outra razão: centralizar as diversas festas, como as religiosas, em um só momento. Durante todo o ano, eram inúmeras celebrações e o objetivo foi organizá-las para ocorrer em um único período -nesse caso, no Carnaval.
"Essas outras festas já tinham um certo ar de Carnaval moderno. As pessoas dançavam, iam para as ruas, cantavam, usavam máscaras, tinham barracas", conta Abreu.
Para impor as mudanças desejadas ao Carnaval, as elites brasileiras olharam para o que acontecia na Europa, onde festas populares de rua também eram alvo de controle. A década de 1870 foi a mais importante na empreitada. No Rio de Janeiro, elites fundaram as grandes sociedades carnavalescas, associações que desfilavam em pontos estratégicos da cidade, como na rua do Ouvidor e na avenida Rio Branco. Esses desfiles, compostos de carros alegóricos, iriam supostamente ensinar a população brasileira como organizar uma folia civilizada.
Mas a ideia fracassou já que diferentes segmentos da população também começaram a organizar desfiles. Embora perseguidas, essas iniciativas populares passaram a ganhar cada vez mais espaço. Agremiações foram criadas e posteriormente se transformaram em importantes escolas de samba.
"Os setores populares e negros subverterem esse Carnaval das elites e trouxeram para rua uma festa incontrolável", diz Abreu.
Para a professora da UFF, a folia como espaço de disputa política, onde grupos populares buscavam fugir do controle das elites, é um importante elemento para entender as peculiaridades do Carnaval moderno no país. "O sentido político do Carnaval é muito brasileiro. Os setores negros e populares encontraram na festa uma forma de expressão e de identidade", continua Abreu.
Araújo, da UFRJ, também elenca a ação de outras populações não europeias como importante para entender a evolução da festa popular no Brasil. Isso também é visto em Carnavais em outros países, como em Trinidad e Tobago, onde a festa apresenta uma forte influência afro-caribenha.
"Com o reconhecimento do Carnaval como um instante de relaxamento da ordem dominante, práticas de diferentes lugares aproveitaram esse momento e trouxeram novas contribuições ao Carnaval brasileiro", afirma.
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