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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Muitos dentistas, pouco acesso: O desafio da saúde bucal no Brasil

Por Karina Carrascoza*
​​O Brasil consolidou-se como uma das maiores referências mundiais em Odontologia. O país reúne o maior contingente de cirurgiões-dentistas em atividade e, ano após ano, milhares de novos profissionais ingressam no mercado. Sob qualquer indicador relacionado à formação acadêmica, não há escassez de mão de obra qualificada.

Seria razoável imaginar, portanto, que o acesso da população aos serviços odontológicos estivesse amplamente garantido. Não está.

Em diversas regiões do país, sobretudo nos municípios de menor porte, em áreas remotas e nas comunidades mais vulneráveis, a realidade ainda é marcada pela dificuldade para conseguir atendimento odontológico regular. Equipes de saúde bucal permanecem incompletas, concursos não conseguem preencher todas as vagas, a rotatividade de profissionais compromete a continuidade do cuidado e muitos brasileiros enfrentam longas esperas até mesmo para procedimentos básicos.

À primeira vista, trata-se de um paradoxo. Como um país que forma tantos dentistas ainda convive com tamanha desigualdade no acesso à saúde bucal?

A resposta exige mudar o foco do debate. O problema brasileiro já não está na capacidade de formar profissionais. O desafio passou a ser distribuí-los de maneira mais equilibrada pelo território nacional e criar condições para que permaneçam onde são mais necessários.

Esse fenômeno não é exclusivo da Odontologia. Ele também afeta outras profissões da saúde. A maior parte dos especialistas concentra-se nas grandes cidades e nos centros economicamente mais desenvolvidos, onde há maior demanda privada, melhores perspectivas de remuneração e mais oportunidades de crescimento profissional. Em contrapartida, municípios menores encontram dificuldades para atrair e, principalmente, fixar esses profissionais.

O resultado é uma desigualdade que ultrapassa os números das estatísticas e alcança diretamente a vida das pessoas. Quando o acesso ao cirurgião-dentista é limitado, pequenos problemas deixam de ser tratados precocemente. Cáries evoluem, doenças periodontais se agravam, infecções tornam-se recorrentes e cresce a procura por atendimentos de urgência e procedimentos de maior complexidade, mais caros para o sistema de saúde e mais dolorosos para o paciente.

A saúde bucal deixou de ser compreendida apenas como uma questão estética ou localizada. Hoje se sabe que ela interfere na alimentação, na fala, no desenvolvimento infantil, no rendimento escolar, na autoestima e na inserção social. Também há sólida evidência científica de sua relação com doenças sistêmicas, como diabetes, enfermidades cardiovasculares e complicações gestacionais. Investir em Odontologia significa investir na saúde integral da população.

É justamente nesse ponto que a carreira pública ganha relevância estratégica. A discussão não deve se limitar ao número de vagas existentes, mas às condições oferecidas para que os profissionais escolham permanecer nos municípios que mais necessitam de sua atuação.

Planos de carreira estruturados, remuneração compatível com a responsabilidade da função, condições adequadas de trabalho, educação permanente e perspectivas de desenvolvimento profissional não representam apenas mecanismos de valorização da categoria. Constituem instrumentos de política pública capazes de ampliar o acesso da população à saúde bucal e reduzir desigualdades históricas entre diferentes regiões do país.

A experiência demonstra que a simples abertura de concursos não resolve, por si só, o problema. Em muitos casos, as vagas são preenchidas apenas temporariamente ou sequer despertam interesse suficiente para garantir equipes completas. A continuidade do cuidado, um dos pilares da Atenção Primária à Saúde, depende da permanência dos profissionais e da construção de vínculos duradouros com as comunidades atendidas.

O Brasil já demonstrou que possui capacidade para formar alguns dos melhores cirurgiões-dentistas do mundo. O próximo passo exige uma agenda menos quantitativa e mais estratégica. Em vez de perguntar quantos profissionais ainda precisamos formar, talvez seja mais importante discutir como assegurar que aqueles já existentes possam exercer sua profissão justamente onde sua presença produz maior impacto social.

Em um sistema de saúde fundamentado nos princípios da universalidade, da integralidade e da equidade, o acesso ao atendimento odontológico não pode ser determinado pelo CEP de cada cidadão. A excelência da Odontologia brasileira somente estará plenamente consolidada quando alcançar, com a mesma qualidade, tanto os grandes centros urbanos quanto os municípios mais distantes do país.

Garantir essa distribuição mais equilibrada, fortalecer a carreira pública e criar condições para a fixação dos profissionais não é apenas uma pauta corporativa da Odontologia. É uma decisão de política pública capaz de tornar o Sistema Único de Saúde mais eficiente, mais resolutivo e, sobretudo, mais justo para milhões de brasileiros.

*Karina Carrascoza é professora, especialista em concursos de Odontologia e sócia da OdontoQuiz, referência nacional em preparação para concursos de Odontologia. Mestre em Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica (UNICAMP).Doutora em Saúde da Criança e do Adolescente (UNICAMP). Especialista em Endodontia (APCD). Especialista em Gestão Pública em Saúde (UNICAMP). Servidora Pública: 6 convocações em concursos públicos de odontologia.

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