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domingo, 5 de julho de 2026

Mosquito da dengue pode "ignorar" repelente, diz estudo

Descoberta amplia o conhecimento sobre o comportamento do mosquito, mas não muda a recomendação de uso do repelente
Naiara Ribeiro/sbt
Um estudo conduzido por pesquisadores da França e dos Estados Unidos mostrou que o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, é capaz de aprender com experiências anteriores. Em laboratório, esse aprendizado fez com que os insetos passassem a aceitar o contato com o repelente depois de associarem seu cheiro à alimentação.

A pesquisa, publicada em maio na revista científica Journal of Experimental Biology, investigou se insetos transmissores de doenças conseguem aprender e memorizar informações. Em diferentes estudos com mosquitos e percevejos transmissores da doença de Chagas, os cientistas observaram que esses insetos podem modificar o comportamento a partir de experiências anteriores.

Em entrevista à Rádio França Internacional (RFI), o entomólogo Claudio Lazzari, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), detalhou os experimentos realizados com fêmeas do Aedes aegypti. A equipe utilizou o DEET (N,N-dietil-3-metilbenzamida), um dos repelentes mais utilizados e considerados mais eficazes, desenvolvido na década de 1940.

Os pesquisadores, no entanto, fazem um alerta: os resultados foram obtidos em condições de laboratório e não significam que o repelente deixou de funcionar nem que os mosquitos estejam desenvolvendo resistência ao produto na natureza.

Como os cientistas "treinaram" o mosquito
Para descobrir se os mosquitos eram capazes de aprender, os pesquisadores utilizaram um método clássico da psicologia experimental baseado na associação entre estímulos. É o mesmo princípio usado em experimentos em que um animal aprende que o toque de uma campainha indica que a comida está chegando.

No caso do mosquito, porém, havia um desafio. Diferentemente do som da campainha, o repelente desperta uma reação natural de fuga. Para contornar, os pesquisadores inverteram a lógica do experimento. Primeiro, ofereciam alimento ao mosquito e, em seguida, apresentavam o repelente. Depois de repetir esse processo diversas vezes, os insetos passaram a associar o cheiro do produto à alimentação.

"Os mosquitos estavam tão estimulados a se alimentar que aceitaram o repelente sem escapar. Para eles, a comida e o cheiro do repelente eram percebidos ao mesmo tempo", explicou Claudio Lazzari. O comportamento foi o mesmo independentemente do alimento oferecido aos insetos. "Testamos com sangue, mas também com açúcar, já que os mosquitos têm alimentação dupla: consomem tanto néctar de flores quanto sangue. Nos dois casos, o sangue e o açúcar foram capazes de modificar o comportamento dos mosquitos diante do repelente", afirmou.

Durante os experimentos, cada fêmea de Aedes aegypti era colocada em um tubo isolado. O sangue era oferecido atrás de uma membrana que imitava a pele humana e permitia que o mosquito se alimentasse normalmente. Depois de quatro picadas, o repelente era aplicado por dez segundos, com intervalos de cinco minutos entre cada etapa.

Além de controlar o momento da aplicação do repelente, a equipe também mediu a quantidade de alimento ingerida pelos insetos. "Depois, controlamos a quantidade de alimento ingerida pelo mosquito cronometrando o tempo. Como os mosquitos comem, em média, a uma taxa semelhante, conseguimos associar duração e volume", explicou o neurocientista Clement Vinauger.

O que os pesquisadores descobriram
Cerca de 30 mosquitos participaram do estudo. De acordo com Claudio Lazzari, os experimentos foram repetidos durante meses para garantir a confiabilidade dos resultados.

Ao final dos testes, os pesquisadores concluíram que, após serem condicionados a associar o cheiro do repelente à alimentação, os mosquitos passaram a reagir de forma diferente ao produto.

Além da mudança de comportamento, a equipe analisou o que acontecia no cérebro dos insetos usando técnicas de imagem e eletrofisiologia, método que registra a atividade elétrica dos neurônios.

Segundo Vinauger, os testes mostraram que experiências anteriores podem alterar a forma como o mosquito percebe determinados odores. Isso ajuda a explicar por que o comportamento do inseto mudou durante o experimento.

"Já nesse primeiro nível de transmissão, ocorre integração e modulação de como os odores são representados, dependendo de terem sido aprendidos ou não, ou de ter havido experiência prévia. Assim, temos uma ideia geral dos circuitos envolvidos nesse tipo de aprendizado", afirmou.

O repelente continua funcionando?
Apesar da descoberta, os pesquisadores reforçam que não há motivo para deixar de usar repelente. Os resultados foram obtidos em condições de laboratório e não indicam que o Aedes aegypti esteja desenvolvendo resistência ao DEET na natureza.

Segundo os cientistas, o estudo ajuda a entender melhor como experiências anteriores podem influenciar a forma como o mosquito reage ao repelente. Porém, que o DEET continua sendo um dos repelentes mais eficazes para prevenir picadas e reduzir o risco de doenças como dengue, chikungunya e febre amarela.

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