Reportagem afirma que diplomatas brasileiros avaliam barrar a missão e defendem a confiabilidade do sistema eleitoral
Camilly Rosaboni/sbt
Riley M. Barnes e Samuel D. Samson | Reprodução/Atlantic Council e Reprodução/Departamento do Estado americano

A delegação do Departamento de Estado deve ser formada por Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente. A viagem a Brasília está prevista para os próximos dias, segundo uma nota enviada pelo Departamento de Estado ao Post. O órgão, no entanto, não respondeu aos questionamentos do jornal sobre o objetivo da missão.
De acordo com a reportagem, ainda não está claro quais medidas os representantes americanos pretendem adotar para avaliar o sistema eleitoral brasileiro, nem quais autoridades ou instituições devem integrar a agenda da visita. O Brasil é frequentemente citado como referência na América do Sul pela rapidez na apuração dos votos, com os resultados sendo divulgados poucas horas após o encerramento da votação.
Governo brasileiro reage à iniciativa dos EUA
Segundo o Washington Post, diplomatas brasileiros afirmaram, na quinta-feira (23), ter tomado conhecimento da iniciativa e estudam formas de impedir a entrada da delegação no país.
"Trata-se de uma manobra completamente incompatível com a democracia brasileira", disse um dos diplomatas ao jornal, sob condição de anonimato por não ter autorização para falar publicamente sobre o assunto. Segundo ele, o governo brasileiro pretende adotar medidas para "proteger nosso sistema de votação".
Ainda conforme a reportagem, autoridades brasileiras avaliam que a missão possa resultar em um relatório destinado a lançar dúvidas sobre a credibilidade das urnas eletrônicas. O jornal lembra que Samuel Samson já participou da elaboração de relatórios do Departamento de Estado que, segundo críticos, abordavam questões de direitos humanos sob uma perspectiva partidária.
Críticas à mudança na diplomacia dos EUA
Para o Washington Post, o episódio sinaliza uma mudança na condução da política externa dos Estados Unidos durante o governo Trump. Segundo críticos ouvidos pelo jornal, a diplomacia americana passou a ser empregada com maior frequência para atender a objetivos políticos e ideológicos, em detrimento das diretrizes tradicionais da atuação diplomática.
"Para aqueles de nós que perderam amigos levando a democracia para outros países, é extremamente preocupante ver o secretário usar o poder americano para enfraquecer eleições confiáveis em outros países por razões ideológicas", afirmou ao Post, sob condição de anonimato, um alto funcionário do Departamento de Estado.
O mesmo integrante da pasta acrescentou que, no passado, os Estados Unidos recorriam à sua influência internacional para defender processos democráticos em contextos de risco, enquanto agora estariam enviando representantes políticos para questionar a credibilidade do sistema eleitoral de outro país.
Segundo o funcionário, essa postura contrasta com a adotada pelos EUA em 2022, quando o governo americano atuou para reforçar a defesa da democracia brasileira diante do risco de ruptura institucional. À época, o então secretário de Defesa, Lloyd Austin, afirmou que avaliações da inteligência dos EUA concluíram que não havia credibilidade nas acusações feitas contra o sistema eleitoral brasileiro.
"Nós enviamos continuamente representantes militares para deixar claro aos seus colegas brasileiros que eles estariam sujeitos a sanções e outras consequências caso rompessem com a ordem constitucional", afirmou.
Observadores defendem confiabilidade das eleições
Observadores internacionais de observação eleitoral têm reiterado a confiabilidade do sistema de votação brasileiro. Segundo o embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), Benoni Belli, todas as missões que acompanharam as eleições no país desde 2018 — incluindo o pleito presidencial de 2022 — concluíram que o processo é seguro, confiável e capaz de refletir legitimamente a vontade do eleitorado.
A avaliação é compartilhada pelo especialista em eleições Salvador Romero, que já atuou como observador em mais de 20 países. Para ele, o sistema eleitoral brasileiro é "um dos mais robustos da América Latina".
Setores conservadores mantêm questionamentos
Apesar dessas avaliações, questionamentos sobre a integridade das eleições seguem presentes em parte de setores conservadores críticos ao governo federal. O influenciador Paulo Figueiredo, investigado pela Justiça brasileira por suposta participação na tentativa de golpe, afirma que essas preocupações também são compartilhadas por integrantes do governo dos Estados Unidos.
"Sei que os Estados Unidos observarão a eleição e já manifestaram diretamente a mim preocupações sobre a integridade eleitoral no Brasil", afirmou. "Esse é um tema muito importante para este governo. Sei que eles estudam profundamente o sistema eleitoral brasileiro há bastante tempo."
Nem Barnes nem Samson responderam aos pedidos de comentário do The Washington Post.
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