Experiência com cerca de mil crianças e adolescentes mostra como tecnologia e inteligência artificial podem ajudar escolas a identificar precocemente problemas de saúde
Uma experiência realizada com cerca de mil estudantes de escolas públicas identificou que 6 em cada 10 crianças e adolescentes avaliados precisam de atenção à saúde bucal. Os resultados reforçam a importância da escola como espaço para identificação precoce de problemas de saúde e mostram como novas tecnologias podem ampliar a capacidade de triagem de crianças e jovens.
Os dados são do Programa DNA do Brasil - Saúde na Escola, que está levando à rede pública de Ceilândia, no Distrito Federal, um modelo de atenção à saúde apoiado em inteligência artificial. Executado pelo Instituto para o Desenvolvimento da Criança e do Adolescente pela Cultura e Esporte (IDECACE), em parceria com a Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (SEJUS-DF), o programa utiliza scanners intraorais integrados à inteligência artificial e realiza também triagem clínica de enfermagem em estudantes de 5 a 18 anos.
A experiência está sendo realizada inicialmente em escolas públicas de Ceilândia, mas chama a atenção para um problema que atinge crianças e adolescentes em todo o país.
A Pesquisa Nacional de Saúde Bucal, SB Brasil 2023, do Ministério da Saúde, mostrou que 36,85% dos adolescentes brasileiros de 12 anos apresentavam pelo menos um dente permanente com cárie não tratada. Entre os adolescentes de 15 a 19 anos, esse percentual chegava a 43,73%.
Diagnóstico dentro da escola
A proposta do programa é utilizar a própria escola como ponto de identificação de problemas que muitas vezes só seriam percebidos quando a criança apresentasse sintomas ou procurasse atendimento.
Em aproximadamente dois minutos por estudante, um scanner portátil captura imagens tridimensionais da cavidade bucal. Com apoio de inteligência artificial, são gerados laudos digitais que auxiliam na identificação de cáries, alterações gengivais, problemas de oclusão e outras condições.
O escaneamento não substitui a avaliação dos profissionais de saúde. A tecnologia funciona como instrumento de apoio à triagem, permitindo avaliar um grande número de estudantes e identificar aqueles que precisam de maior atenção.
Até o momento, cerca de mil estudantes já passaram pelo programa, de uma meta inicial de 1.500 avaliações. Os resultados preliminares apontaram necessidade de atenção à saúde bucal em 6 de cada 10 avaliados.
A avaliação odontológica é combinada a uma triagem clínica de enfermagem. Nessa etapa, o programa identificou ainda que quase 1 em cada 10 crianças e adolescentes avaliados apresenta indicadores de risco relacionados a colesterol alto, diabetes ou hipertensão arterial.
Tecnologia para transformar triagem em informação
Além da rapidez da avaliação, outro diferencial é a possibilidade de acompanhar os estudantes ao longo do tempo.
Os resultados são integrados ao Sistema DNA do Brasil, plataforma de business intelligence que consolida os dados em painéis de indicadores de saúde. Cada estudante recebe uma identificação com QR Code vinculada ao seu histórico, permitindo rastreabilidade e acompanhamento das avaliações realizadas.
Os dados coletados também formam uma base para pesquisa científica, analisada por um comitê de especialistas, com o objetivo de gerar evidências que possam contribuir para o aprimoramento de políticas públicas de saúde voltadas à infância e à juventude.
A experiência inicial mostra uma possibilidade de aplicação da tecnologia em maior escala: levar instrumentos de triagem para onde crianças e adolescentes já estão todos os dias, transformando a escola também em um espaço estratégico para prevenção e identificação precoce de problemas de saúde.
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