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quarta-feira, 18 de março de 2026

Observar a urina pode ajudar na detecção precoce de doenças renais

Médica da Sociedade Brasileira de Nefrologia alerta para os sintomas que podem indicar condições ultrarraras que, se não tratadas, resultam em falência renal
Nefrologista Dra. Maria Helena Vaisbich 
Pequenas mudanças na cor, no odor e na aparência da urina podem ser sinais importantes de que algo não vai bem com a saúde dos rins[1]. Neste mês do Rim, a nefrologista Dra. Maria Helena Vaisbich (CRM SP 49436), coordenadora do Comitê de Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Nefrologia (COMDORA-SBN), recomenda “prestar atenção a esses sinais simples do dia a dia que podem contribuir para o diagnóstico precoce de doenças renais com evolução silenciosa”.

O envelhecimento populacional e o aumento de fatores de risco, como obesidade, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, ajudam a explicar por que a Doença Renal Crônica (DRC) representa um desafio global de saúde pública, mas essas não são as únicas causas[2]. Existem outras condições que podem levar à falência renal, como as doenças renais raras[3].

Uma delas é a Glomerulopatia por Complemento 3 (C3G), uma doença renal ultrarrara causada por uma parte do sistema imunológico, o sistema complemento, que danifica os rins[4],[5]. Quando desregulado, esse sistema desencadeia um processo inflamatório que compromete a funcionalidade dos glomérulos, estruturas responsáveis por filtrar o sangue e colaborar na produção da urina[6],[7],[8].

“Apesar de acometer uma quantidade menor de pessoas, essas doenças raras podem progredir de forma significativa, comprometendo a função dos rins, além da saúde geral e da qualidade de vida dos pacientes[9]. Cerca de 50% dos casos de C3G, se não devidamente diagnosticados e tratados, evoluem para insuficiência renal em até 10 anos, levando o indivíduo a ter que fazer diálise e transplante renal[10]”, alerta a nefrologista.

No caso da C3G, um dos sinais de alerta é a urina espumosa, causada pela presença anormal de proteínas na urina4. Os rins funcionam com um filtro, mantendo substâncias essenciais para o organismo, eliminado as toxinas e o excesso de líquidos pela urina2. “A presença de proteína na urina pode indicar que essa ‘filtragem’ não está ocorrendo adequadamente1. Por isso, é fundamental que seja realizada uma avaliação médica para investigar a causa da alteração. A alteração da urina pode ser um importante sinal de que algo não vai bem”, esclarece a especialista.

Além da urina espumosa, pacientes com C3G podem apresentar inchaço, pressão alta, fadiga, ansiedade e depressão4. Por serem inespecíficos, porém, esses sinais podem ser confundidos com outras doenças, atrasando o diagnóstico12. Uma das manifestações iniciais da condição pode ser uma nefrite, uma inflamação dos rins, que pode ocorrer depois de um quadro de infecção de garganta ou de pele[11]

A C3G costuma afetar pessoas de todas as idades, começando muitas vezes na infância e impactando principalmente indivíduos em idade produtiva4,[12]. Para identificar a C3G, é necessária uma biópsia renal[13].

De acordo com a Dra. Maria Helena, alterações na urina também podem indicar outras enfermidades. “A urina pode conter sangue em algumas condições, como na Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN), outra doença ultrarrara, entre outras[14].

Odor forte e persistente, dor ao urinar ou redução ou aumento significativo do volume urinário também merecem atenção e avaliação médica, pois podem sinalizar desde infecção urinária, cálculos renais até outras patologias1”, reforça a Dra. Maria Helena.

Quando os rins são afetados
A Doença Renal Crônica (DRC) afeta milhões de pessoas em todo o mundo e é considerada um problema de saúde pública[15]. No Brasil, em março de 2024, das 180.510.202 pessoas cadastradas na Atenção Primária à Saúde, 227.478 tinham DRC[16].

“Um dos principais desafios da DRC, é que, nas fases iniciais, a doença pode não apresentar sintomas claros2. Por isso, a observação da urina e a realização periódica de exames simples, como o exame de urina e a dosagem de creatinina no sangue, são fundamentais para o diagnóstico precoce1,[17]”, conclui a Dra. Maria Helena.

Referências
[1] National Kidney Foundation. Disponível em: https://www.kidney.org/news-stories/what-your-urine-says-about-your-kidney-health. Acesso em fevereiro de 2026.

[2] National Kidney Foundation. Disponível em: https://www.kidney.org/kidney-topics/chronic-kidney-disease-ckd. Acesso em fevereiro de 2026.

[3] Kidney Research UK. Disponível em: https://www.kidneyresearchuk.org/2025/09/24/the-devastating-impact-of-rare-kidney-diseases/. Acesso em fevereiro de 2026

[4] National Kidney Foundation. Complement 3 Glomerulopathy (C3G): Knowing the Signs and Symptoms. Disponível em: https://www.kidney.org/kidney-topics/complement-3-glomerulopathy-c3g. Acesso em outubro de 2025.

[5] Heiderscheit AK, Hauer JJ, Smith RJH. C3 glomerulopathy: Understanding an ultrarare

complement-mediated renal disease. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2022 Sep;190(3):344-357.

[6] Koscielska-Kasprzak K,Bartoszek D. Myszka M, Zabinska M, Klinger M. Arch Immunol Ther Exp (Warsz). 2014;62(1):47-57.

[7] De Vriese AS, Sethi S, Van Praet J, Nath KA, Fervenza FC.J Am Soc Nephrol. 2015, 26(1@):2917-2929

[8] Lukawska E, Polcyn-Adamczak M, Niemir Zl. Clin Exp Med.2018;18(3):297-318.

[9] Oxford Academic. Disponível em: https://academic.oup.com/ndt/article/39/2/202/7246920. Acesso em março de 2026.

[10] Martín B, Smith RJH. In: Adam MP, Feldman J, Mirzaa GM, et al., editors. C3 Glomerulopathy. GeneReviews®. Updated 2018. University of Washington, Seattle; 1993-2024. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK1425/. Acesso em setembro de 2025.

[11] Ponticelli, C.; Calatroni, M.; Moroni, G. C3 glomerulopathies: dense deposit disease and C3 glomerulonephritis. Frontiers in Medicine, 2023. DOI: 10.3389/fmed.2023.1289812. This review notes that C3 glomeropathy clinical presentation is variable and may include symptoms typical of glomerulonephritis (inflammation of the glomeruli), which reflects a non-infectious inflammatory renal condition. Frontiers

[12] BOMBACK, A. S. Complement 3 glomerulopathy (C3G): 5 differential diagnoses to know. Medscape Nephrology, 2025.

[13] My Cleveland Clinic. Disponível em https://my.clevelandclinic.org/health/procedures/21160-kidney-biopsy. Acesso em dezembro de 2025.

[14] Cleveland Clinic. Disponível em: https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/22871-paroxysmal-nocturnal-hemoglobinuria. Acesso em março de 2026.

[15] KDIGO 2024. Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group DOI: https://doi.org/10.1016/j.kint.2023.10.018

[16] Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico. Volume 55, nº 12 Cenário da doença renal crônica no Brasil no período de 2010 a 2023. Brasília, 11 set. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-12.pdf. Acesso em fevereiro de 2026.

[17] National Kidney Foundation. Disponível em: https://www.kidney.org/kidney-topics/tests-to-check-your-kidney-health. Acesso em março de 2026.

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