Por Daniel Araújo - BN

O governador Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito neste domingo (4) para comandar o Estado da Bahia por mais quatro anos. Com 55,19% dos votos válidos, o petista derrotou o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil), que alcançou 44,27% no primeiro turno. Até o momento, 94,71% das urnas foram apuradas.
A vitória garante ao Partido dos Trabalhadores a continuidade de um ciclo político que governa o estado ininterruptamente desde 2007, quando Jaques Wagner (PT) venceu Paulo Souto e quebrou o domínio carlista - grupo ligado ao antigo senador Antônio Carlos Magalhães (1927-2007).
A reeleição de Jerônimo referenda a avaliação de seu primeiro mandato (2023-2026) e sua forte vinculação com o governo federal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na reta final da campanha, pesquisas já indicavam um cenário de forte acirramento e crescimento do petista, impulsionado por uma aprovação de governo que orbitava a casa dos 53% às vésperas do pleito.
MARCAS DO PRIMEIRO MANDATO (2023-2026)
O primeiro mandato de Jerônimo Rodrigues foi caracterizado pela tentativa de consolidar políticas de assistência social e pelo estreitamento de laços com os 417 municípios baianos, priorizando a governança através de consórcios intermunicipais.
Logo em seu primeiro ano de gestão, o governador promoveu uma reforma administrativa que desmembrou secretarias para espelhar a esplanada dos ministérios em Brasília e adequar a execução de verbas federais. A antiga Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJHDS) deu lugar a duas novas pastas. A principal vitrine social da gestão foi a criação do programa Bahia Sem Fome, desenhado para combater a insegurança alimentar no estado.
Apesar das entregas na área social e na educação, o primeiro mandato do petista forneceu munição constante para a oposição, com desgastes concentrados em três eixos principais: a crise na segurança pública, os impasses nos megaempreendimentos de infraestrutura e a fila da regulação nos hospitais.
A segurança pública se consolidou como o principal calcanhar de Aquiles de Jerônimo. Durante o quadriênio, o estado figurou repetidamente no topo dos índices nacionais de violência letal e de letalidade policial. O avanço de facções criminosas armadas, refletido em episódios de confrontos intensos na capital e no interior (como a crise em Jequié e bairros de Salvador), gerou um clima de insegurança. O alto número de mortes decorrentes de intervenções policiais atraiu críticas severas de entidades de direitos humanos e exigiu do governo a criação de forças-tarefas e o anúncio de reestruturações na Secretaria de Segurança Pública (SSP).
Na mobilidade, o VLT do Subúrbio tornou-se um símbolo de frustração. O governo precisou romper unilateralmente o contrato com o consórcio chinês Skyrail em 2023, após a empresa não conseguir tirar o antigo projeto de monotrilho do papel. A gestão Jerônimo foi forçada a relicitar a obra do zero, adotando o modelo de Veículo Leve sobre Trilhos tradicional. O atraso prolongou drasticamente o déficit de transporte para a população do Subúrbio Ferroviário, que perdeu os antigos trens em 2021.
A novela da Ponte Salvador-Itaparica também se arrastou. Promessa histórica das gestões petistas anteriores, o projeto bilionário sofreu com sucessivos adiamentos em seus cronogramas de sondagem e dragagem. Impasses financeiros com o consórcio construtor — impulsionados pela inflação global pós-pandemia — forçaram o governo a renegociar aportes, fazendo com que a oposição explorasse a obra como um "elefante branco" midiático durante toda a campanha de 2026.
DE AIQUARA AO PALÁCIO DE ONDINA
Primeiro governador autodeclarado indígena da história do Brasil, Jerônimo Rodrigues Souza tem 61 anos e uma trajetória que mescla a vida acadêmica com a gestão pública. Natural do povoado de Palmeirinha, no município de Aiquara, no sudoeste baiano, teve uma infância humilde. Filho de um vaqueiro e de uma costureira, deixou sua cidade natal aos 9 anos para estudar em Jequié e, posteriormente, em Salvador. Formou-se em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Cruz das Almas, e concluiu o mestrado em Ciências Agrárias. Desde 1995, é professor licenciado da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).
Sua entrada na política institucional ocorreu nos bastidores. Filiado ao PT desde os anos 1990, Jerônimo atuou em movimentos sociais e ocupou cargos no Ministério do Desenvolvimento Agrário durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff (2011-2016). Na Bahia, ganhou projeção como um dos principais articuladores das gestões petistas. Durante os mandatos de Rui Costa (PT), foi titular de duas pastas estratégicas: a Secretaria de Desenvolvimento Rural (2015-2019) e a Secretaria da Educação (2019-2022).
Em 2022, venceu ACM Neto no segundo turno com 52,79% dos votos. Agora, ao garantir um segundo mandato, consolida seu próprio capital político frente ao eleitorado.
A RUPTURA COM O CARLISMO E A NOVA HEGEMONIA
Ao derrotar novamente ACM Neto, o PT assegura uma hegemonia que completará vinte e quatro anos no poder estadual, consolidando uma vitória significativa contra o "Carlismo" — a robusta máquina política liderada pelo ex-governador e ex-senador Antônio Carlos Magalhães, que governou a Bahia por quase meio século.
A guinada histórica teve início em 2006, com a vitória de Jaques Wagner no primeiro turno. Desde então, o grupo liderado pelo PT superou sucessivas investidas da oposição, elegendo e reelegendo Rui Costa e, agora, referendando Jerônimo, reconfigurando as bases de poder nos municípios do interior e impondo duras derrotas aos herdeiros políticos do antigo grupo carlista.
DESAFIOS PARA NOVO CICLO
Para o mandato que se inicia em 1º de janeiro de 2027, Jerônimo terá novamente ao seu lado o vice-governador Gerldo Júnior (MDB). A nova gestão precisará lidar imediatamente com as cobranças herdadas de seu próprio primeiro mandato, especialmente a necessidade de respostas rápidas para o combate ao crime organizado e a entrega física das obras da ponte Salvador-Itaparica. Outro desafio central segue sendo a fila da regulação, segurança pública e educação.
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