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sábado, 13 de junho de 2026

Produtora declara gasto de R$ 75 milhões com 'Dark Horse' e pode adiar exibição do filme após desgaste

Por Rogério Pagnan | Folhapress
Foto: Reprodução / Youtube / Flávio Bolsonaro
O filme produzido em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o já polêmico "Dark Horse" --"azarão", em inglês--, teve custo total de US$ 13,4 milhões, ou cerca de R$ 75 milhões, e não recebeu incentivos ou recursos públicos, segundo perícia privada contratada pela defesa da Go Up Entertainment.

O laudo com esses dados foi anexado a um inquérito policial que investiga suposto uso de verbas públicas no filme. A suspeita é que recursos tenham sido desviados de um contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora de "Dark Horse".

Com a chamada "perícia investigativa preventiva", a defesa tenta se antecipar ao trabalho da polícia e sustentar a inexistência dos desvios investigados.

Além do suposto uso de recursos públicos, o custo total da obra cinematográfica também se tornou alvo de questionamentos após o vazamento de um áudio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, no qual ele cobra o repasse de recursos de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para financiar a produção.

O laudo afirma que os gastos realizados no Brasil, entre 1º de junho de 2025 e 4 de junho de 2026, somaram R$ 20.927.664,75, valor que, pela taxa de conversão adotada pela perícia, corresponde a US$ 3.728.084,66. Nos Estados Unidos, os custos da produção foram calculados em US$ 9.664.996,63, ou cerca de R$ 54,2 milhões.

Somadas, as duas frentes de produção totalizam US$ 13.393.081,29. O valor representa cerca de 56% dos R$ 134 milhões que teriam sido previstos em tratativas reveladas pelo site The Intercept Brasil envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Um dos pontos centrais do laudo é o papel do Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos. Segundo a perícia, o fundo celebrou em 24 de fevereiro de 2025 contrato de investimento para o filme. Até a data de elaboração do laudo, os aportes atribuídos ao Havengate somavam US$ 13,3 milhões, valor equivalente ao custo total declarado da produção.

Conforme reportagem da Folha, o Havengate é administrada por Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho de Jair Bolsonaro que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. O laudo sustenta que os recursos analisados têm origem privada, mas limita a conclusão aos documentos apresentados pela defesa à perícia.

O nome de Vorcaro ou de outros eventuais financiadores da obra não são citados no laudo. O ex-banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões para financiar o filme.

A perícia afirma que a existência do contrato com o Havengate, somada a extratos bancários, documentos de remessa e registros financeiros analisados, indica origem privada dos recursos. O laudo diz não ter identificado, no material examinado, uso de verbas públicas, incentivos fiscais, Lei Rouanet ou recursos oriundos da Prefeitura de São Paulo.

A conclusão da perícia, porém, diz se limitar aos documentos apresentados para análise.

A perícia privada foi contratada pela defesa de Karina, liderada pelo advogado Ricardo Sayeg, que diz ter aconselhado o adiamento da estreia do filme, para evitar que a obra seja associada à disputa eleitoral. "Para que não pairem dúvidas sobre a natureza cultural e artística, minha recomendação encaminhada à Karina, que está sendo analisada junto com o pessoal dos EUA, é que o filme seja lançado depois das eleições", disse Sayeg.

À Folha Karina afirmou que estuda a recomendação e pode adiar o lançamento. Sayeg afirma que a produção é isenta e que o objetivo de Karina é ganhar o Oscar. "Queremos o Oscar nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor roteiro original e melhor filme internacional", afirmou Karina, em nota enviada anteriormente.

A Polícia Federal também apura se valores repassados por Vorcaro podem ter sido usados para financiar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio e Eduardo negam irregularidades.

Em outra frente, a Prefeitura de São Paulo afastou nesta semana Rodrigo Raveli Bolzan, gerente da SPTuris, empresa municipal de turismo, após a Controladoria-Geral do Município abrir apuração sobre sua ligação com empresas e entidades associadas ao caso.

Antes de ocupar o cargo na empresa municipal, Bolzan foi sócio da Complexys Soluções Integradas, uma das empresas investigadas pela Polícia Civil no inquérito que apura a hipótese de que recursos públicos recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil tenham sido desviados e terminado na produção de "Dark Horse".

O ICB firmou contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura para fornecimento de wi-fi.

Procurado para comentar os valores gastos com a obra, Flávio Bolsonaro não havia se manifestado até a publicação desta reportagem. O senador foi procurado por meio de sua assessoria.

"A produção aconteceu, o filme do meu pai existe, profissionais foram contratados e tudo foi feito de forma privada. Transformaram um projeto cultural em narrativa política porque existe uma pré-candidatura no caminho", disse ele, em maio.

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