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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dia Mundial dos Transplantados (06/06) Biópsia renal: Por que tantos pacientes chegam ao transplante sem diagnóstico?

Além da escassez de patologistas especializados na área , o exame é realizado principalmente em grandes centros, limitando o acesso de pacientes que estão em regiões mais remotas do país

São Paulo, junho de 2026 - Silenciosas e frequentemente subdiagnosticadas, muitas doenças renais crônicas evoluem sem sinais evidentes até fases avançadas[3]. Quando os sintomas finalmente aparecem, o comprometimento dos rins já costuma ser significativo, e, em muitos casos, o paciente acaba necessitando de diálise ou transplante renal3. O desafio é que parte desses transplantes pode não ter o desfecho esperado justamente pela ausência do diagnóstico correto da doença de base que levou à falência renal[4].

Esse cenário reforça a importância do diagnóstico precoce e da investigação adequada das doenças glomerulares, especialmente das condições raras, que ainda enfrentam baixa conscientização e importantes barreiras diagnósticas[5],[6]. Entre elas estão a Nefropatia por IgA (IgAN) e a Glomerulopatia por Complemento 3 (C3G), doenças rara e ultrarrara que afetam os glomérulos, estruturas dos rins responsáveis pela filtragem do sangue[7],[8].

“Para doenças glomerulares, o padrão da lesão só pode ser definido com segurança analisando a amostra retirada via biósia renal no microscópio”, explica o Dr. David Campos Wanderley (CRM MG 62513 RQE Nº: 37941), médico patologista renal e membro do Comitê de Patologia Renal de Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

Os impactos da falta de diagnóstico adequado são relevantes. Estudos mostram que a recorrência da IgAN após o transplante renal pode variar entre 20% e 60%, dependendo do tempo de acompanhamento e dos critérios diagnósticos adotados[9]. Já a C3G apresenta evolução ainda mais agressiva: cerca de 50% dos pacientes desenvolvem insuficiência renal em até dez anos e até 90% dos transplantados podem apresentar falha do enxerto renal8.

Nesse contexto, a biópsia renal se consolida como uma ferramenta estratégica da medicina diagnóstica, capaz de identificar com precisão alterações que exames laboratoriais isolados muitas vezes apenas sugerem. O procedimento consiste na retirada de um pequeno fragmento do rim para análise por técnicas especializadas, como microscopia óptica, imunofluorescência e, em alguns casos, microscopia eletrônica[10].

Apesar de sua relevância clínica, o acesso à biópsia renal ainda enfrenta desafios importantes no Brasil, especialmente no sistema público de saúde. O exame permanece concentrado em centros de média e alta complexidade, geralmente localizados em grandes centros urbanos, o que limita o acesso em regiões mais remotas2.

No SUS, o caminho até o procedimento pode ser longo, envolvendo encaminhamento, avaliação especializada e fila para realização do exame. Um dos poucos levantamentos disponíveis sobre o tema aponta que apenas 36% da necessidade estimada de biópsias renais foi efetivamente atendida no SUS no estado de São Paulo em 20192.

Outro gargalo importante é a escassez de patologistas especializados em nefropatologia1. Dados recentes indicam que o Brasil conta com cerca de 4,4 mil patologistas[11] — número equivalente a aproximadamente dois profissionais por 100 mil habitantes, abaixo da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere entre cinco e seis especialistas para essa proporção populacional11.

“Hoje temos cerca de 30 nefropatologistas1 em todo o país. Além da baixa procura pela especialidade, muitos profissionais precisam complementar sua formação fora do Brasil, já que a residência em anatomia patológica sozinha, na maioria das vezes não é suficiente para exercer a subespecialidade com expertise”, afirma o Dr. Wanderley. O especialista atua no Instituto de Nefropatologia, em Belo Horizonte (MG), parceiro do SUS e um dos maiores centros da especialidade no país, responsável por cerca de 5 mil biópsias renais ao ano.

Atualmente, o rim lidera a lista de espera de transplantes no Brasil. Das cerca de 78 mil pessoas que aguardam um órgão no país, mais de 42 mil esperam por um transplante renal de acordo com dados do Ministério da Saúde[12]. Apesar da realização de cerca de 6 mil transplantes por ano[13], a demanda segue muito superior à capacidade do sistema[14].

Referências
[1] SCHEFFER, M. (coord.). Demografia Médica no Brasil 2025. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. ISBN 978-65-5993-754-7. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/

demografia_medica_brasil_2025.pdf. Acesso em 21/05/2026.

[2] Samaan F, Gutierrez M, Kirsztajn GM, Sesso RC. Razão oferta/necessidade de consultas médicas, exames de diagnóstico e acompanhamento da doença renal crônica no Sistema Único de Saúde: estudo descritivo, estado de São Paulo, 2019. Epidemiol Serv Saude. 2022;31(2):e20211050.

[3] YALE MEDICINE. Why Is Chronic Kidney Disease (CKD) on the Rise? 6 Things to Know. Disponível em: https://www.yalemedicine.org/news/why-is-chronic-kidney-disease-ckd-on-the-rise. Acesso em 21/05/2026.

[4] Quaglia M, Musetti C, Ghiggeri GM, Fogazzi GB, Settanni F, Boldorini RL, Lazzarich E, Airoldi A, Izzo C, Giordano M, Stratta P. Unexpectedly high prevalence of rare genetic disorders in kidney transplant recipients with an unknown causal nephropathy. Clin Transplant. 2014 Sep;28(9):995-1003.

[5] Madaio MP, Harrington JT. The diagnosis of glomerular diseases: acute glomerulonephritis and the nephrotic syndrome. Arch Intern Med. 2001 Jan 8;161(1):25-34.

[6] Ramachandran R, Sulaiman S, Chauhan P, Ulasi I, Onu U, Villaneuva R, Alam MR, Akhtar F, Vincent L, Aulakh GS, Sutranto AL, Zakharova E, Jha V. Challenges in Diagnosis and Management of Glomerular Disease in Resource-Limited Settings. Kidney Int Rep. 2022 Jul 16;7(10):2141-2149

[7] IgA Nephropathy Foundation. IgA Nephropathy Facts. Disponível em: https://igan.org/. Acesso em 21/05/2026.

[8] Martín B, Smith RJH. In: Adam MP, Feldman J, Mirzaa GM, et al., editors. C3 Glomerulopathy. GeneReviews®. Updated 2018. University of Washington, Seattle; 1993-2024. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK1425/. Acesso em 21/05/2026.

[9] Jäger C, Stampf S, Molyneux K, Barratt J, Golshayan D, Hadaya K, Huynh-Do U, Binet FI, Mueller TF, Koller M, Kim MJ. Recurrence of IgA nephropathy after kidney transplantation: experience from the Swiss transplant cohort study. BMC Nephrol. 2022 May 10;23(1):178.

[10] Schnuelle P. Renal Biopsy for Diagnosis in Kidney Disease: Indication, Technique, and Safety. J Clin Med. 2023 Oct 9;12(19):6424.

[11] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA (SBP). Demografia Médica 2025: pesquisa aponta déficit alarmante de médicos patologistas no Brasil. São Paulo, 2025. Disponível em: https://www.sbp.org.br/demografia-medica-2025-pesquisa-aponta-deficit-alarmante-de-medicos-patologistas-no-brasil/. Acesso em 21/05/2026.

[12] Ministério da Saúde. Brasil bate recorde de transplantes e anuncia medidas para modernizar sistema e aumentar doações. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/junho/brasil-bate-recorde-de-transplantes-e-anuncia-medidas-para-modernizar-sistema-e-aumentar-doacoes. Acesso em 21/05/2026.

[13] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS (ABTO). Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) – Dados numéricos da doação de órgãos e transplantes realizados por estado e instituição no período: janeiro/março – 2025. São Paulo: ABTO, 2025. Disponível em: https://site.abto.org.br/wp-content/uploads/2025/07/RBT2025-1trimestre-Populacao.pdf. Acesso em 21/05/2026.

[14] Bastos VS, Lima AMSA, Henrique MTT, Maramaldo ICR, Santos JS, Silva SP, et al. Transplantes de órgãos e tecidos: uma análise dos transplantes realizados na região Nordeste em 2024. Braz J Transplant. 2026;29:e0226
BR-38756

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