O Brasil ampliou em 67% o número de leitos de UTI na última década e hoje está entre os países com maior oferta desse tipo de atendimento no mundo. Apesar do avanço, o acesso ao cuidado intensivo ainda é desigual. É o que mostra levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Pelos dados, quem tem plano de saúde pode ter até cinco vezes mais chances de conseguir um leito do que quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa diferença pode ainda ser maior, dependendo do Estado ou da região geográfica.
Entre 2016 e 2025, o país passou de cerca de 28 mil para mais de 47 mil leitos de terapia intensiva para adultos nas redes pública e privada. O índice nacional chegou a 22,3 leitos por 100 mil habitantes, acima da média global, estimada em 8,7, e dentro da faixa considerada adequada por organismos internacionais. O crescimento foi impulsionado sobretudo durante a pandemia de covid-19 e, em grande parte, se manteve nos anos seguintes, consolidando uma expansão estrutural da capacidade hospitalar. No entanto, o aumento de tamanho da rede não significa que os problemas acabaram.

O presidente da AMIB, Cristiano Franke, afirma que, no SUS, é urgente melhorar a organização do cuidado e a gestão dos leitos para ampliar o acesso à terapia intensiva. Para ele, em muitos casos, é possível obter ganhos sem a necessidade imediata de expansão do número de leitos. Franke afirma que o caminho para a equidade passa pela combinação de investimentos e, principalmente, aprimoramento da gestão e organização dos recursos existentes.
Apesar da expansão em nível nacional, os dados consolidados pela AMIB indicam ainda que em determinadas regiões permanece a necessidade de ampliação da disponibilidade de leitos, sobretudo na rede pública. Para a Associação, considerada referência no tema, o fato de o país apresentar uma taxa relativamente elevada não significa que se instalou um cenário de acesso equitativo. Ao contrário, as desigualdades observadas impactam diretamente a chance de sobrevivência dos pacientes dentro do sistema de saúde.
A média global de disponibilidade de leitos de UTI, considerando 87 países com dados disponíveis, é de 8,7 por 100 mil habitantes. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a faixa entre 10 e 30 leitos por 100 mil como referência a ser perseguida pelas nações. No Brasil, se em termos gerais, houve uma evolução importante na cobertura, esse movimento alcançou um estágio de maior conforto no segmento privado e suplementar da assistência.
Os números descrevem uma evolução semelhante entre os leitos do SUS (13.869, em 2016, para 23.218, em 2025) e do setor privado (14.572, em 2016, para 24.426, em 2025), porém a rede formada por serviços particulares e operadoras de planos de saúde atingiu um patamar de taxas próximas de 69 leitos por 100 mil habitantes ao longo da década, o que a coloca em pé de igualdade com cenários de países desenvolvidos. Já no SUS, o índice passou de 7,5 por 100 mil, em 2016, para 13 por 100 mil, em 2025, praticamente dobrando.
Com esse cenário, velhos problemas permanecem, como um acesso ao cuidado intensivo no Brasil marcado por desigualdades relevantes entre regiões e, sobretudo, entre quem tem ou não plano de saúde. Em 2025, a população brasileira foi estimada em 213,4 milhões de habitantes. Desse total, 35,5 milhões eram atendidos por planos de saúde e 177,9 milhões exclusivamente pelo SUS. Na prática, isso significa que 16,6% da população concentra 24.426 leitos de UTI adulto, enquanto 83,4% compartilham 23.218 leitos, pouco menos da metade dos 47.644 disponíveis no país.
A desigualdade se acentua quando se observa a oferta proporcional. Entre beneficiários de planos de saúde, são 69 leitos por 100 mil habitantes. Já entre usuários do SUS, a taxa é de 13 por 100 mil. Em termos concretos, quem possui plano tem cerca de cinco vezes mais chance de acessar um leito de UTI do que quem depende exclusivamente da rede pública.

Sob outra perspectiva, ao combinar a dependência exclusiva do SUS com o local de residência, o contraste no acesso à UTI se intensifica. Um morador do Espírito Santo que dependa do sistema público (22,8 leitos SUS por 100 mil habitantes) tem cerca de seis vezes mais chance de acessar um leito de terapia intensiva do que alguém no Amapá (3,6 por 100 mil).
Em números absolutos, o Sudeste concentra 10.616 leitos de UTI pelo SUS, seguido do Nordeste (5.361), Sul (3.908), Centro-Oeste (1.886) e Norte (1.447). Quando se observa a oferta proporcional, o Sudeste também lidera, com 15 leitos por 100 mil habitantes, seguido do Sul (14), Centro-Oeste (13), Nordeste (11) e Norte (8), este último abaixo do patamar mínimo recomendado internacionalmente, de 10 leitos por 100 mil habitantes.

* média de leitos UTI Adulto SUS + Não SUS
Segundo o presidente do Conselho Consultivo da AMIB, Ederlon Rezende, o crescimento do número de leitos de UTI ao longo dos anos representa um avanço importante, especialmente pela capacidade de resposta construída durante a pandemia e que acabou sendo incorporada de forma estrutural ao sistema de saúde.
“O principal desafio está na distribuição e na capacidade de resposta do sistema. A forma como os leitos estão organizados e integrados à rede de atenção ainda limita o acesso em diversas regiões do país, sobretudo para a população que depende exclusivamente do SUS”, comentou,
Rezende destaca ainda ser necessário avançar na construção de redes regionais mais articuladas, com maior capacidade de coordenação entre os serviços, de modo a reduzir vazios assistenciais e desigualdades territoriais. Segundo ele, o momento exige menos foco isolado na expansão e mais atenção à forma como os recursos existentes são distribuídos e utilizados.
Distribuição de leitos SUS e Não SUS por Unidade da Federação

* IBGE/ANS/CNES: dezembro de 2025
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