
Pesquisador, ativista e homem trans, ele atravessou diferentes momentos da epidemia e hoje questiona a invisibilidade de quem nasceu com HIV, cobra pesquisas sobre transmasculinidades e defende que a resposta à aids volte a falar também de tratamento, qualidade de vida e cura.
Lírio Nascimento tem 36 anos e não consegue separar a história de sua vida da história da aids no Brasil. Não porque o HIV defina quem ele é, mas porque o vírus está em seu corpo desde que nasceu. Enquanto Lírio crescia, a ciência também aprendia a enfrentar uma epidemia que, nos primeiros anos, parecia deixar pouco espaço para o futuro.
Ele foi criança vivendo com HIV. Depois, adolescente. Chegou à vida adulta. Tornou-se pesquisador e ativista. É um homem trans. Vive hoje em Natal, no Rio Grande do Norte. E pertence a uma geração sobre a qual se falou muito quando ainda era criança, sobretudo para discutir transmissão vertical, mas que parece ter perdido visibilidade à medida que cresceu. Agora, essa geração se aproxima dos 40 anos.
Na 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro, Lírio circulou entre os espaços científicos e a Global Village com uma inquietação: em meio a tantos anúncios sobre novas tecnologias de prevenção e às discussões sobre o futuro da resposta ao HIV, onde estavam as pessoas que, como ele, já vivem com o vírus há três ou quatro décadas?
“Não é uma crítica à prevenção. Acho importante que a gente tenha essa agenda. Mas a gente não tem tido espaço para falar de quem já vive com HIV.”
Lírio sentiu falta, sobretudo, de discussões sobre os avanços no tratamento. Enquanto PrEP, PEP e novas tecnologias preventivas ocuparam parte importante da programação científica, ele esperava encontrar mais respostas para questões que acompanham aqueles que dependerão do tratamento antirretroviral durante décadas.
Também queria ver mais discussões sobre tratamentos de longa duração e sobre os efeitos do uso prolongado das tecnologias que hoje são celebradas como grandes conquistas da ciência.
“O que significa tomar PrEP por mais de 10 anos, por exemplo? É algo que a gente já pode observar, porque é uma tecnologia que já está aí há algum tempo.”
A inquietação vem de alguém para quem o tempo possui um significado particular quando se fala em HIV. Lírio não vive com o vírus há cinco, dez ou vinte anos. Vive com ele desde o nascimento.
As crianças cresceram
Durante décadas, uma das grandes preocupações da resposta à aids foi impedir que crianças nascessem com HIV. O avanço da prevenção da transmissão vertical mudou radicalmente esse cenário. Mas as crianças que nasceram infectadas nas primeiras décadas da epidemia continuaram vivendo. Lírio é uma delas. Mais na agenciaaids
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