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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Fuzilamento ao vivo nos EUA pode virar tiro no pé de Trump

Especialista afirma que não há evidências de que execuções públicas reduzam crimes e alerta para danos à imagem internacional dos Estados Unidos
André Barbeiro, Marina Demori, Duda Ventura
A decisão de transmitir ao vivo o fuzilamento de Nidal Hasan, ex-major do Exército dos Estados Unidos condenado por matar 13 pessoas em uma base militar no Texas, pode enfraquecer a credibilidade internacional do país na defesa dos direitos humanos. A avaliação é do professor Alexandre Coelho, coordenador do curso de pós-graduação em política e relações internacionais da escola de sociologia e política de São Paulo, em entrevista ao SBT News.

Para o especialista, não há comprovação científica de que execuções públicas sejam capazes de reduzir a criminalidade ou impedir novos ataques terroristas. “Não existem estudos robustos, não tem nenhuma comprovação”, afirmou. Segundo ele, nem mesmo a eficácia da pena de morte como instrumento de prevenção de crimes é conclusiva.

Coelho explicou que as execuções deixaram de ser realizadas publicamente nos Estados Unidos após o último caso registrado em 1936. Na avaliação dele, a exposição pode produzir um efeito diferente do pretendido pelas autoridades.

“Ao invés de diminuir o crime ou inibir o crime, pelo contrário, acaba arrastando multidões, mas não pelo efeito do medo, mas pelo efeito da própria diversão em si”, disse.

O professor também alertou para as consequências diplomáticas da iniciativa. Segundo ele, a transmissão pode dar argumentos a governos de países frequentemente criticados por violações de direitos humanos, como Irã, Afeganistão e Coreia do Norte.

“Enfraquece qualquer argumento de defesa de direitos humanos”, afirmou Coelho, ao comentar a contradição entre a atuação dos Estados Unidos na defesa internacional desses direitos e a possibilidade de exibir publicamente uma execução.

Efeito político e eleições nos EUA
A decisão também ocorre em meio à preparação para as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Para Coelho, a proposta pode reforçar o apoio de parte da base eleitoral de Donald Trump, especialmente entre os integrantes do movimento MAGA, mas não deve necessariamente conquistar eleitores independentes.

“Eu acho que ele tá querendo atingir aqui os independentes e, ao mesmo tempo, também falar pro seu público MAGA”, avaliou. O professor ponderou, porém, que a medida pode ter um efeito contrário ao desejado pelo governo. “Essa exibição pública pode ter um efeito negativo e se voltar contra a própria administração Trump”, afirmou.

Coelho também destacou que a Organização das Nações Unidas não tem poder para obrigar os Estados Unidos a mudar de posição, mas pode exercer pressão diplomática. Para ele, a condenação internacional deve ser analisada em conjunto com outras decisões do governo Trump envolvendo instituições internacionais.

Retorno de práticas do passado
Questionado sobre o motivo de as sociedades modernas terem afastado as execuções do espaço público, o especialista explicou que a fiscalização do Estado não depende da exposição da morte de condenados diante de multidões.

“Você pode ter testemunhas autorizadas, autoridades autorizadas aqui, autoridades que possam de fato acompanhar a execução”, disse.

Coelho ressaltou que a crítica não se concentra na condenação de Hasan, mas na possibilidade de transformar a execução em um evento público. “O que a gente está criticando é justamente essa volta”, afirmou.

Para o professor, ainda é necessário acompanhar se a iniciativa permanecerá como um caso isolado ou se poderá abrir caminho para outras medidas semelhantes. Ele também alertou que a decisão pode sinalizar uma mudança na forma como os Estados Unidos se posicionam diante das normas internacionais de direitos humanos.

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