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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Rã perigosa que muge como boi e come pássaros vivos obriga governo brasileiro a mobilizar operação de caçada à espécie

Crédito: Imagem Ilustrativa
No escuro das florestas e das lagoas, uma criatura causa temor em Florianópolis: a rã-touro-americana (Aquarana catesbeiana). Recentemente, na região de Ratones, foi organizada uma operação ambiental para lidar com a invasão nem tão silenciosa destes animais. Correio24horas

Esses pequenos infratores são conhecidos pelo seu coaxar barulhento, que lembra o mugido de uma vaca. Porém, não apenas no som eles são parecidos com vacas, mas na sua capacidade de tratorar um ambiente inteiro, deixando apenas terra e um rastro de morte.

As acusações contra esse infrator estrangeiro incluem violações ambientais, assassinato de espécies nativas e invasão de propriedade privada. As autoridades responsáveis mobilizaram uma força-tarefa para apreender os animais.

Os primeiros registros dessa espécie invasora exótica no Brasil foram feitos em 1935, mas em Santa Catarina os primeiros encontros foram em 2025, em uma propriedade no bairro Ratones.

Até agora, duas ações de campo resultaram na captura de 11 animais. Foram dez em novembro de 2025 e um em março de 2026. A presença da rã foi confirmada em três propriedades da região.

Os animais capturados foram encaminhados ao Laboratório de Herpetologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). As análises buscam verificar a presença de ranavírus e quitridiomicose, doenças que podem afetar anfíbios e peixes e cujas rãs-touros são frequentemente vetores.

A introdução inicial dessa espécie no Brasil foi feita para a ranicultura, carne para o consumo humano / Crédito: Srdjan Sabo / Pexels
“Detecção precoce e resposta rápida”
O presidente da Floram, Fábio Henrique Machado, definiu o trabalho em Ratones como uma estratégia de “detecção precoce e resposta rápida”. A lógica é simples: quanto antes a invasão for entendida, maior a chance de controle.

A bióloga Priscilla Tamioso, da Floram, afirmou que o mapeamento começou depois do primeiro registro oficial. Segundo ela, a atuação busca “evitar sua dispersão e reduzir impactos sobre a fauna nativa”.

Esse ponto é importante porque espécies invasoras costumam ser mais fáceis de conter no início. Quando se espalham por áreas grandes, o controle fica mais caro, mais lento e, em muitos casos, quase inviável

Esse ponto é importante porque espécies invasoras costumam ser mais fáceis de conter no início. Quando se espalham por áreas grandes, o controle fica mais caro, mais lento e, em muitos casos, quase inviável.

Quais os perigos dessa espécie?
O principal risco da espécie é para o ecossistema. As rãs-touros são animais que podem atingir até 20 cm e se alimentar de quase qualquer outro animal que consigam engolir. Isso inclui outros sapos, insetos, pequenos mamíferos, aves e até pequenas serpentes.

Possuindo um amplo cardápio, a rã invasora se torna uma ameaça para a fauna nativa e cria uma competição desleal com espécies nativas. Dessa maneira, além de predar as espécies nativas, ela também as substitui.

Além disso, o seu alto “mugido” também é um elemento negativo para a fauna local. Em lagoas e florestas, muitos animais dependem da vocalização para a reprodução ou caça, e possuir um “vizinho barulhento” atrapalha esses processos naturais, que são mais baixos em volume.

Em Santa Catarina, a rã-touro integra a lista oficial de espécies da fauna exótica invasora. Ela aparece na Categoria 1 da Resolução CONSEMA nº 272/2025, classificação usada para orientar ações de manejo no estado.

Essa categoria indica espécies com risco reconhecido ao ambiente. A medida ajuda órgãos ambientais a definir prioridades, organizar respostas e orientar a população sobre o que fazer em caso de encontro.

Amplo cenário
Um mapeamento publicado na revista Scientific Reports analisou 324 amostras de rãs-touro em 38 locais de sete estados brasileiros. A pesquisa investigou populações criadas em ranários e outras já encontradas soltas na natureza.

Os pesquisadores identificaram duas populações principais destes anfíbios no país. Uma delas está amplamente espalhada pelo Sul e Sudeste. A outra aparece com mais força em Minas Gerais, com presença menor em outros estados.

A descoberta mais relevante para o controle é que as populações de ranários e as populações livres não apresentaram grande diferença genética. Ou seja, animais das fazendas frequentemente fogem e seus descendentes são recapturados na natureza, e vice-versa.

Em outras palavras, o problema não começou agora em Florianópolis. O caso de Ratones é uma nova manifestação local de uma história antiga: animais criados para produção que geram impacto ambiental por descuido no manuseio, como é o caso do temido peixe-leão, que está ameaçando o litoral nordestino.

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