A comida à base de azeite de dendê é tradição na Semana Santa
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Segundo o historiador Ricardo Carvalho, essa diferença está relacionada às origens culturais de cada local.
“A diferença de Salvador e essas outras cidades está diretamente ligada à intensidade da formação histórica afro-atlântica da capital e do Recôncavo baiano. Salvador foi o principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas portuguesas, o que acabou resultando em uma densidade cultural africana que é tão forte e contínua”, explicou o historiador em entrevista ao g1.
De acordo com Ricardo Carvalho, essa influência africana ultrapassa a religiosidade e impacta diretamente no cotidiano da população.
“Essa presença não se limitou apenas à religiosidade, mas acabou estruturando hábitos alimentares, formas de sociabilidade e práticas simbólicas no cotidiano. É nesse ambiente que a culinária ritual afro-baiana se consolida e vai se entrelaçando com o calendário católico”.
Já em outras regiões do estado, o processo histórico seguiu um caminho diferente. “Cidades como Barreiras e Vitória da Conquista têm formações históricas mais ligadas à expansão pecuarista no interior e com fluxos migratórios muito distintos. A influência africana, embora presente, não se estruturou da mesma forma nesse cotidiano ritual alimentar”, pontuou Carvalho.
Nessas localidades, o cardápio costuma ser marcado por práticas mais tradicionais do catolicismo europeu.
“Na Sexta-feira Santa, essas regiões tendem a seguir mais estritamente a tradição católica europeia, centrada na abstinência da carne vermelha e no consumo de peixes, sem a incorporação desses pratos ritualísticos afro-baianos. Não se trata necessariamente de uma ausência cultural, mas de uma trajetória histórica diferente, mais europeia, e que acabou moldando práticas distintas dentro do estado da Bahia”.
Entre o luto cristão e a celebração afro-baiana
A presença de pratos como caruru, vatapá e outros quitutes típicos na Sexta-feira Santa em Salvador vai além de uma simples adaptação regional da tradição católica. Segundo o historiador Ricardo Carvalho, trata-se de um processo histórico profundo, marcado pelo encontro entre diferentes matrizes culturais.
“Trata-se, na verdade, de uma síntese histórica que está profundamente enraizada, um encontro entre a tradição cristã ibérica e as matrizes religiosas africanas, principalmente aquelas de origem iorubá”.
De acordo com o historiador, o significado da data ganha novos contornos no contexto baiano. “A Sexta-feira Santa, que marca o luto pela morte de Cristo, é reinterpretada no contexto de Salvador como um momento de recolhimento que privilegia alimentos associados ao sagrado afro-brasileiro, muitos deles ligados às oferendas para orixás como Xangô, Iansã, etc.”
Além do aspecto religioso, esses alimentos também carregam um forte valor simbólico e comunitário. Carvalho lembra que o caruru, por exemplo, é associado a rituais e festas religiosas, e carrega a ideia de partilha e coletividade.
“Ao serem incorporados na Sexta-feira Santa, esses pratos deslocam a lógica do sacrifício cristão para um campo de memória cultural afro-baiano muito forte, criando uma experiência única em que o sagrado não é apenas penitência, mas também celebração identitária”.
Essa releitura também é explicada pela forma como povos africanos enxergam a morte e a espiritualidade. Para o babalorixá Vilson Caetano, que também é professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), a alimentação tem papel central nesse processo.
“Na Sexta-feira da Paixão, o catolicismo lembra a morte de Jesus. Os africanos escravizados também tomavam parte dessas celebrações, sendo obrigados a participar de alguma maneira delas”.
Segundo Vilson, os africanos celebram o momento com fartura, pois “comer e beber são essenciais para a entrada no mundo dos antepassados”. “Desta maneira, a morte de Jesus, principal liderança do Cristianismo, é celebrada desta maneira. Daí o banquete servido com iguarias originadas das cozinhas da África Ocidental na sexta-feira em que se comemora a Paixão de Cristo”.
É uma maneira africana de relembrar a entrada de Jesus no mundo dos antepassados e a sua continuidade no mundo dos vivos”.
O babalorixá também destacou que, nessa perspectiva, a celebração não está ligada à espera pela ressurreição no terceiro dia. “O africano não acredita no terceiro dia, não aguarda o terceiro dia para fazer memória da entrada do ente querido no mundo dos antepassados, porque o provérbio diz que os que nascem são sempre vivos, e a morte significa uma continuidade que deve ser rememorada com comida e bebida”, pontuou.
O entendimento é de que a sexta-feira é o dia da própria resurreição. Como ressaltou o babalorixá, essa foi mais uma intervenção dos povos de origem africana no catolicismo.
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