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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Uso excessivo de celular e redes sociais pode afetar sua saúde mental?

Foto: StockSnap de Pixabay
O CEO da Meta está no centro de um julgamento histórico. A acusação: plataformas como Instagram foram desenhadas para estimular uso compulsivo entre adolescentes.

O depoimento de Mark Zuckerberg no julgamento nos Estados Unidos reacende um debate que já ultrapassa o campo tecnológico: o uso compulsivo de celulares e redes sociais pode configurar um padrão de dependência comportamental com repercussões clínicas reais. Via ipiauonline

Embora “vício em smartphone” ainda não esteja formalmente codificado como diagnóstico no DSM-5 ou CID-11, a literatura científica documenta padrões de perda de controle, sofrimento psíquico e prejuízo funcional associados ao uso excessivo de dispositivos móveis.

Para a psiquiatria, compreender os mecanismos neurobiológicos e clínicos por trás desse fenômeno é fundamental para identificar quando o padrão de uso ultrapassa o limite entre hábito, dependência comportamental e quadro que exige intervenção intensiva. Saiba mais nesta matéria que contou com a colaboração do psicólogo do Hospital Santa Mônica, Antonio Chaves Filho.

O que a ciência diz sobre dependência de celulares e uso compulsivo
Termos e classificação
Pesquisadores usam termos como “dependência digital”, “uso problemático de smartphone” ou “nomofobia” (medo irracional de ficar sem o celular) para descrever comportamentos que lembram dependência comportamental — ainda que não tenham diagnóstico formal no CID-11.

O uso problemático está associado a prejuízo funcional (sono, atenção, humor) e a padrões de ansiedade ligados à checagem contínua de notificações e interação online, especialmente em adolescentes.

Neurobiologia do comportamento compulsivo digital
O uso intenso de smartphones ativa circuitos de recompensa no cérebro — particularmente o sistema dopaminérgico — semelhante ao observado em outras dependências comportamentais.

Estímulos intermitentes (notificações, likes, vídeos curtos) funcionam como reforçadores variáveis que mantêm o engajamento.

Estudos sugerem que comportamentos compensatórios podem:
Reduzir volume de massa cinzenta em áreas ligadas ao controle de impulsos e regulação emocional.
Alterar padrões de atividade em regiões associadas ao monitoramento de erro e tomada de decisão.
Reforçar respostas automáticas de busca por recompensa.
Esses efeitos, embora ainda objeto de pesquisa, mostram paralelos fisiológicos com dependências comportamentais como jogos ou consumo problemático de substâncias.

Evidências epidemiológicas em jovens
Uma análise publicada no JAMA mostrou que adolescentes com padrão de uso compulsivo de telas tinham maior risco de piora em indicadores de saúde mental, incluindo ideação suicida, em comparação com colegas com uso mais adaptativo — independentemente do tempo total de tela.

Esse achado reforça que não é apenas “quanto tempo” se passa no smartphone, mas sim a natureza compulsiva do uso que se relaciona com desfechos adversos.

Outro estudo brasileiro com universitários encontrou associação significativa entre dependência de smartphone, ansiedade, depressão, estresse e insatisfação corporal.

Do documentário ao consultório: o papel de “The Social Dilemma”
O docudrama The Social Dilemma (Netflix, 2020) apresenta entrevistas com ex-funcionários de tecnologia que explicam como o design algorítmico das redes sociais maximiza engajamento de forma semelhante a máquinas de apostas, moldando comportamentos e emoções.

Embora seja um produto audiovisual e não um estudo científico, o filme oferece uma narrativa útil para clínicos: ele evidencia como o design persuasivo pode:
Explorar vulnerabilidades psicológicas.
Promover ciclos de reforço compulsivo.
Contribuir para ansiedade, distorção da autoimagem e piora de humor.

Para psiquiatras, documentários como esse ajudam a contextualizar como fatores ambientais e digitais interagem com vulnerabilidades biopsicossociais.

Uso compulsivo de celular e desenvolvimento cerebral
Especialistas alertam que os impactos do uso intensivo de telas, principalmente em cérebros em desenvolvimento, podem incluir:
Perturbações do sono.
Diminuição de atenção e regulação emocional.
Aumento de ansiedade e sintomas depressivos.
Piora da interação social presencial. (Medicina UFMG)
A Faculdade de Medicina – UFMG, por exemplo, documentou prevalência elevada de sintomas de estresse e depressão associados ao uso excessivo de telas entre várias faixas etárias por meio do documento “Uso excessivo de telas está associado à saúde mental de diferentes gerações”.

Vício digital versus dependência clínica: nuances diagnósticas
É importante reforçar que:
O uso excessivo por si só não indica dependência clínica.
Sintomas de compulsão, perda de controle, prejuízo funcional e sofrimento emocional são os elementos que aproximam o quadro de um padrão que merece avaliação mais profunda.
Há estudos que sugerem que menos de 2% dos adultos atendem critérios rigorosos para um quadro de dependência verdadeira em redes sociais, destacando a diferença entre hábito e patologia.
Para pacientes com sofrimento significativo, a avaliação psiquiátrica deve considerar fatores psicossociais, comorbidades e funcionalidade — não apenas contagem de horas de uso.

Abordagens clínicas: além do “tempo de tela”
Avaliação diagnóstica
Psiquiatras podem se apoiar em instrumentos validados para uso problemático de tecnologia, considerando:
Critérios de perda de controle.
Interferência no funcionamento cotidiano.
Presença de sintomas de abstinência psicológica.
Relação com humor, sono e ansiedade.
O foco é na experiência subjetiva e impacto funcional, não apenas no relógio.

Estratégias terapêuticas
Embora a pesquisa em intervenções esteja em desenvolvimento, abordagens que mostram potencial incluem:
Psicoeducação sobre mecanismos de reforço.
Terapia cognitivo-comportamental focada em regulação de impulsos e identificação de gatilhos.
Experiências de “desintoxicação digital” estruturada.
Abordagem familiar quando adolescentes estão em contexto clínico.
Tecnologias emergentes (como modelos baseados em aprendizado de máquina que detectam padrões de uso e propõem intervenções personalizadas) estão sendo estudadas, embora ainda não sejam rotina clínica.

Cuidado integrado na clínica hospitalar
No contexto de internação psiquiátrica, o uso compulsivo de celular pode aparecer associado a:
Depressão maior com ruminância digital.
Ansiedade severa exacerbada por notificações e comparação social.
Comorbidades com uso de substâncias psicoativas.
Distúrbios do sono profundo.

A hospitalização é reservada para casos com risco iminente, prejuízo funcional acentuado ou quando o uso compulsivo está diretamente associado a comportamentos autodestrutivos.

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