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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Com país em crise, venezuelanos fazem fila para comprar o básico

Venezuelanos fazem fila em supermercado de Caracas: escassez piorou devido à demora na reposição de produtos durante as festas de fim de ano 
JORGE SILVA / Jorge Silva/Reuters/9-1-2015 
RIO - A rotina semanal do casal Geraldo Luiz Hernández Góes e Mercedes Milena Namia Dias inclui, além do trabalho e dos cuidados com a filha Andrea Lucia, de 9 anos, uma logística complexa para garantir itens básicos para a casa, em meio a longas filas no supermercado estatal Pdval, em Coro, capital do estado venezuelano de Falcon. Por causa do número final da identidade de cada um, eles podem fazer compras às terças e quartas-feiras. Das 5h até o início da tarde, eles se revezam na fila de acordo com as obrigações de cada um naquele dia para garantir a cota de alimentos permitida pelo governo. 

— A rotina de filas para comprar coisas básicas, como leite e frango, já faz alguns anos aqui, mas está muito pior. Também tenho dificuldades para encontrar matéria-prima para meu trabalho, na produção de portões de ferro — diz o venezuelano, filho de uma brasileira e que viveu no Rio na adolescência. 

O cenário se agravou na sexta-feira. As festas de fim de ano atrasaram as entregas no varejo, gerando filas gigantescas nas lojas — em algumas, das 3h até as 22h. A população busca de tudo, até papel higiênico. Rapidamente se espalhou nas redes sociais uma convocação para greve a partir de amanhã. A oposição, porém, informou que era contra o protesto diante da estagnação da economia do país e acusou o governo de Nicolás Maduro de tentar desviar a atenção da população da escassez de produtos. 

SEGUNDO ANO DE RECESSÃO
A escassez e o racionamento de alimentos e produtos em geral são apenas um sinal dos problemas enfrentados pela Venezuela. O tombo na cotação do petróleo venezuelano — cujo preço do barril caiu 46%, dos US$ 100,64 em junho para US$ 47,05 no fim de dezembro —, na esteira da queda internacional da commodity, agravou a situação do país, que já sofria com falta de dólares, inflação elevada (acima dos 60% ao ano) e economia em queda. 

Recebendo ainda menos pelo petróleo exportado, crescem os temores de que a Venezuela possa suspender o pagamento de sua dívida externa e, assim, dar calote. Economistas apontam o aumento desse risco, mas para alguns não é o cenário provável. 

A projeção é que 2015 seja o segundo ano seguido de recessão. A consultoria Capital Economics acaba de rever sua estimativa de queda para o Produto Interno Bruto (PIB) este ano: de 1,5% para 5%. Isso após uma retração estimada em 3,5% em 2014. O Banco Central da Venezuela anunciou em 30 de dezembro que a economia teve contração de 4,8% no primeiro trimestre; 4,9% no segundo; e 2,3% no terceiro. Foram os primeiros números sobre a atividade econômica em 2014 divulgados pelo governo e confirmam uma recessão que já era prevista no mercado. 

— A economia da Venezuela é a única na América Latina com uma retração dessa magnitude e vive uma situação complicada. São quatro problemas principais: falta de divisas, recuo do PIB em três trimestres e que provavelmente vai continuar, inflação em alta. E a queda no preço do petróleo torna a situação muito mais grave — afirma Leonardo Vera, professor de Economia da Universidade Central da Venezuela, em Caracas. 

FALTA DE DÓLAR E RISCO DE CALOTE
O chef de cozinha Eduardo Moreno, que comanda de sua casa o restaurante informal La Isabela, diz que compra matéria-prima nas viagens pelo mundo ou no mercado de Chacao, em Caracas, onde os produtos são mais caros: 

— Há duas realidades na Venezuela. Há pessoas que enfrentam longas filas para comprar itens de primeira necessidade e outros que simplesmente compram pelo preço em que estiver, em mercados onde há de tudo. 

A inflação alta e a falta de itens básicos criam um ambiente de instabilidade social, que contamina a popularidade de Maduro. Por enquanto, no entanto, analistas dizem que poucas medidas foram tomadas para reduzir os desequilíbrios da economia. 

A falta de dólares, diz Vera, é anterior ao recuo na cotação do barril. Está ligada às políticas de exportação de petróleo com pagamento posterior a países como Cuba, Bolívia e alguns do Caribe; ao embarque de óleo para a China como forma de honrar empréstimos; e aos pagamentos crescentes de dívida externa. Esse movimento faz a moeda se apreciar e dificulta a produção doméstica, que tem que enfrentar a escassez de insumos. 

Nesse cenário, reconhece Vera, é maior o risco de que a Venezuela deixe de fazer pagamentos de sua dívida externa. Até agora, esses compromissos têm sido cumpridos, mas, ao mesmo tempo, o governo restringe o ingresso de divisas para o setor privado. É a partir desses dólares que o país paga a dívida, já que suas reservas internacionais são muito pequenas: apenas US$ 22 bilhões, sendo US$ 20 bilhões em ouro. 

Diretor da consultoria Econométrica, Francisco Ibarra concorda que os desequilíbrios da Venezuela não são recentes e que “o preço do petróleo apenas agravou uma situação já complicada”. 

— A Venezuela já tinha entrado em recessão com o barril a US$ 100 — diz Ibarra, que também acredita que o risco de um calote aumentou. — Com este preço de petróleo, a chance é maior. Não descartaria, mas não daria como uma certeza. A realidade é que os pagamentos estão sendo feitos. 

O economista do Bank of America Merrill Lynch Francisco Rodriguez adota atitude de cautela e avalia que o país não entrará em calote. Em relatório, diz que o default é improvável, mas afirma que, se isso ocorrer, será resultado de uma piora na situação do país. E a queda do preço do petróleo pode provocar essa piora. 

Opinião diferente tem o economista de mercados emergentes da Capital Economics David Rees. Ele vê a economia da Venezuela à beira de uma crise no balanço de pagamentos e uma recessão pior que a de 2014. Para ele, a produção declinante de petróleo tem reduzido a oferta de dólares na economia, enquanto a política de nacionalizações aumentou a dependência dos produtos importados. 

CELSO FURTADO APONTAVA FALHAS JÁ NA DÉCADA DE 1950
Sobrevalorização da moeda e falta de industrialização são uma realidade da economia da Venezuela hoje, mas já estavam entre as preocupações do economista Celso Furtado nas décadas de 1950 e 1970. 

Quando economista da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), Furtado esteve em Caracas em 1957 e fez um relatório amplo sobre o país, que acabou não sendo publicado por pressão do governo. Já apontava para a dependência do petróleo e de que maneira a taxa de câmbio sobrevalorizada desencorajava investimentos na indústria. 

— Celso costumava dizer que, na Venezuela, até a alface era importada. Seus estudos mostram que o fato de ter recursos naturais em escala gigante não é garantia para o desenvolvimento, ele não é uma fatalidade — afirma Rosa Freire d’Aguiar Furtado, viúva do economista e autora da introdução do livro “Ensaios sobre a Venezuela: subdesenvolvimento com abundância de divisas”, que reúne esses estudos de Furtado. 

Em 1974, ano seguinte à primeira crise do petróleo, ele voltou à Venezuela e a estudar o país. E descreveu os excessos da arquitetura de Caracas graças à riqueza do petróleo: “Imensos capitais foram imobilizados para criar este corpo pesado que funciona queimando os royalties do petróleo”.

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