
Um em cada quatro estudantes de 13 a 17 anos no Rio de Janeiro estuda em escola que já precisou interromper ou suspender aulas por motivos de segurança. É o estado com o maior percentual de alunos sob este cenário (25,6%), acima da média do Brasil (7,7%) e da região Sudeste (7,1%).
Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quarta-feira (25), que indica outros cenários da educação brasileira, como alimentação, consumo de bebidas alcoólicas e drogas, saúde sexual e mental e atividade física.
A pesquisa considerou respostas de diretores e responsáveis, quando perguntados se já precisaram suspender aulas por questões de violência alguma vez nos 12 meses anteriores ao levantamento, realizado em 2024.
No estado do Rio, 59,4% já vivenciaram interrupção de aulas por falta de segurança duas vezes ou mais, e 38,8% mencionaram uma vez.
A pesquisa indica que o Nordeste foi a região do país com mais alunos em escolas nesta situação (11,6%). A região com menor percentual foi o Centro-Oeste (2,5%).
Entre as capitais, Salvador (40,7%) teve o maior percentual de alunos neste cenário em 2024, seguida por Rio de Janeiro (36,1%), Natal (21,9%) e Teresina (21,8%).
Ricardo Jaheem, 40, foi professor de alfabetização da rede pública carioca de 2008 a 2020, em escolas nos morros do Fallet, Prazeres, Coroa e Mineira, na região central da cidade. Ele afirma ter convivido com episódios de operações policiais e disputa entre facções que forçaram a suspensão das aulas.
Já era uma realidade vivida por ele na infância, como aluno da rede pública e morador de Rocha Miranda, bairro na zona norte. Ricardo é hoje escritor, autor de livros voltados ao público infantil e negro, e dá palestras sobre pedagogia em favelas.
"Nos tempos de aluno eu era impactado pelas operações policiais, mas não havia comunicação pelo celular. Minha mãe me levava à escola sob tiro, e quando chegava não tinha aula. Como professor foram muitos os dias em que me senti desanimado porque também tive de encarar tiroteios, e ao chegar na escola, não encontrar os alunos porque eles também foram impactados", afirma Ricardo.
"A minha mãe tinha o hábito de me contar histórias nos momentos em que havia algum episódio de violência acontecendo. Levei isso para a sala de aula. Meu desafio era transformar a escola num lugar de encantamento, em que a favela fosse base do conhecimento", diz o educador.
A secretaria municipal de Educação do Rio disse que 590 unidades escolares foram fechadas durante o ano letivo de 2025 por conta de operações ou confrontos. A pasta estadual disse que número de escolas impactadas varia, "considerando que a suspensão das aulas pode ocorrer em um turno específico ou afetar todos os turnos".
No Rio, escolas municipais e estaduais adotam o programa de acesso mais seguro em parceria com a Cruz Vermelha, que prevê que a escola tome a melhor decisão quando há insegurança na região, incluindo suspensão de aulas e o fechamento da unidade. O protocolo também funciona para outros serviços essenciais, como postos de saúde.
Em 2024, 12,5% dos estudantes do Brasil deixaram de ir à escola por falta de segurança no caminho, nos 30 dias anteriores à pesquisa. O levantamento mostra que o problema afeta mais a rede pública (13,8%) do que a rede privada (5,4%).
Amazonas foi o estado brasileiro com maior abstenção escolar por falta de segurança no trajeto, com percentual de 17,7% dos estudantes. Santa Catarina foi o menor, com 8,2%.
O Rio de Janeiro foi a capital com mais estudantes que relataram faltar aula por violência no trajeto em 2024 (20,8%).
Diretores e responsáveis foram perguntados sobre quais tipos de violência já ouviram falar ou presenciaram na localidade onde a escola está situada.
O maior percentual de alunos entre 13 e 17 anos estava em escolas no entorno de onde ocorre venda de drogas (38%), em 2024. Deste recorte, 42,5% das escolas pertenciam à rede pública e 14% à rede privada.
Assalto e roubos a pessoas, casas e comércios foi o segundo tipo de violência mais citado, com 28,4% dos alunos; 16,7% estudavam onde houve casos de agressão física ou espancamento; 13,6% onde houve tiros e tiroteios; 10,7% onde houve assassinatos; e 9,8% onde houve violência sexual.
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