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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Menopausa: Veja as mudanças no corpo e como se cuidar

Sono ruim, aumento da cintura, falhas de memória, queda de libido e perda de força mereceM atenção antes que o corpo comece a cobrar a conta
** Alessandra Bedin Pochini é ginecologista, obstetra e nutróloga
Brazil Health*sbt
Especialista explica sobre sintomas e tratamentos na menopausa | Freepik
A mulher raramente chega ao consultório dizendo “estou no climatério”. Ela chega dizendo que não dorme como antes, que acorda cansada, que esquece palavras, que perdeu rendimento, que a cintura aumentou, que a libido mudou, que o treino não funciona mais ou que os exames começaram a sair do lugar.

M uitas vezes, ouve que isso é normal da idade. Mas normal não significa irrelevante. A menopausa é definida depois de 12 meses sem menstruar. O corpo, porém, começa a mudar antes. Essa transição pode afetar sono, humor, memória, sexualidade, composição corporal, saúde óssea, circulação, metabolismo e risco cardiovascular. Com o aumento da longevidade, muitas mulheres viverão um terço ou quase metade da vida após a menopausa. Por isso, a pergunta deixou de ser apenas como aliviar sintomas. Hoje, o desafio é atravessar essa fase preservando vitalidade, autonomia e qualidade de vida.

Os sinais que merecem atenção
Os sintomas mais conhecidos são as ondas de calor e os suores noturnos. Eles podem ser leves, mas também interromper o descanso várias vezes por noite. A mulher acorda exausta, fica mais irritada, sente mais fome, treina pior, trabalha pior e, muitas vezes, acha que o problema é falta de disciplina.

Também entram nessa fase ressecamento vaginal, dor na relação, urgência urinária, infecções de repetição, queda de libido, oscilação de humor, ansiedade, tristeza, fadiga e a sensação de que o corpo não responde mais como antes.

Há sinais ainda mais sutis. Dificuldade de concentração, esquecimento de palavras e sensação de mente lenta são queixas frequentes. Isso não significa que toda falha de memória seja sinal de demência. Na maioria das vezes, há uma combinação de fatores: sono fragmentado, sintomas vasomotores, alterações emocionais, álcool, apneia, medicamentos, deficiências nutricionais, disfunções tireoidianas ou alterações metabólicas.

O erro é tratar tudo como psicológico. O outro erro é tratar tudo como hormônio. O bom cuidado começa quando se investiga a mulher inteira.

Quando a balança engana
Uma das mudanças mais importantes acontece em silêncio. O peso pode nem subir tanto no começo, mas a composição corporal muda: menos massa magra, mais acúmulo abdominal e maior medida de cintura. Essa mudança não é apenas estética. Com a queda do estradiol, o organismo perde parte de uma proteção que antes ajudava no controle do metabolismo, da circulação, do músculo e do fígado.

É por isso que obesidade, sedentarismo, noites mal dormidas e perda muscular pesam tanto nessa fase. Eles atuam sobre os mesmos pontos que ficam mais frágeis com a menopausa. Quando se somam, o risco deixa de ser apenas ganhar peso. Aumenta a chance de adoecer metabolicamente, perder força e acumular gordura hepática.

E gordura no fígado não é um achado banal de ultrassom. Quando progride, pode causar inflamação, aumenta o risco de doenças cardiometabólicas, fibrose e, em casos avançados, cirrose.

Emagrecer no climatério, portanto, não pode significar apenas perder peso. Uma mulher pode perder quilos e, ao mesmo tempo, perder músculo demais. Outra pode perder menos na balança, mas reduzir cintura, melhorar exames, dormir melhor e ganhar disposição. O segundo caminho costuma ser mais inteligente.

A estratégia precisa combinar alimentação de boa qualidade, ingestão adequada de proteínas, treino de força, atividade aeróbica, sono protegido, redução de álcool quando necessário e investigação de compulsão ou comer emocional. Em alguns casos, medicações antiobesidade bem indicadas podem ajudar, desde que façam parte de um plano que preserve função, não apenas reduza números.

Músculo também é saúde
A mulher nessa fase precisa olhar para massa muscular como olha para qualquer marcador importante de saúde. Músculo não é enfeite. É reserva metabólica, proteção contra quedas, autonomia, postura, equilíbrio e capacidade de envelhecer melhor.

O exercício resistido é essencial, mas não se resume à musculação. Pode incluir pesos, máquinas, elásticos, exercícios com o próprio corpo, pilates com resistência ou treinamento funcional bem orientado. O ideal é combinar força, atividade aeróbica, mobilidade e equilíbrio, pensando em condicionamento, articulações, prevenção de quedas, circulação e bem-estar geral.

Para quem está parada, sair do sedentarismo já muda o ponto de partida. Caminhar mais, subir escadas, interromper longos períodos sentada e criar regularidade pode ser o primeiro passo para recuperar vitalidade.

Hormônio não é vilão, mas também não é automático
A terapia hormonal talvez seja o tema mais mal explicado da menopausa. Ela não é para todas, mas também não deveria ser tratada como ameaça universal.

Quando bem indicada, em mulheres sintomáticas, sem contraindicações e na janela adequada, pode melhorar ondas de calor, sono, sintomas geniturinários, qualidade de vida, proteção óssea e alguns marcadores de saúde metabólica e vascular. Isso não significa prescrever hormônio para prevenir infarto. Significa abandonar a ideia simplista de que a terapia hormonal é sempre perigosa ou sempre indicada.

A decisão depende de idade, tempo de menopausa, presença de útero, histórico de câncer de mama, trombose, doença cardiovascular, perfil metabólico, via de uso, dose e tipo de progesterona quando ela é necessária.

Recentemente, a Anvisa aprovou o fezolinetanto, uma opção não hormonal para ondas de calor e suores noturnos. É uma alternativa importante para mulheres que não podem usar hormônio, mas não substitui todos os efeitos da terapia hormonal, nem trata composição corporal, sexualidade, estrutura óssea ou risco metabólico.

O que fazer agora
A menopausa ganhou outro lugar na medicina porque a mulher vive mais, trabalha mais, deseja envelhecer com autonomia e não aceita mais ouvir que tudo é da idade. A avaliação deve incluir sintomas, sono, humor, memória, sexualidade, histórico familiar, medida de cintura, composição corporal, exames metabólicos, função hepática, massa óssea quando indicada, uso de medicamentos, alimentação, ingestão de proteína, álcool, tabagismo e nível real de atividade física.

Não existe uma prescrição única. Existe uma estratégia. Em algumas mulheres, o foco será controlar sintomas e recuperar o sono. Em outras, tratar obesidade, reduzir cintura e proteger massa magra. Em outras, cuidar da sexualidade, dos ossos, do coração ou do metabolismo. Muitas precisarão de tudo isso em graus diferentes. A menopausa não deve ser romantizada como se todo desconforto precisasse ser suportado em silêncio. Também não deve ser medicalizada como se toda mulher precisasse da mesma receita.

O melhor cuidado é aquele que enxerga essa fase antes que ela cobre a conta. A mulher não precisa atravessar o climatério no improviso. Com avaliação especializada e visão ampla, ela deixa de apenas tratar sintomas e passa a proteger energia, lucidez, autonomia, sexualidade, metabolismo e independência para as próximas décadas.

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