Para 67% das mulheres, as bets estão destruindo famílias; 23% dos entrevistados conhecem ou presenciaram casos de violência ligados a apostas
Camilly Rosaboni/sbt
Pesquisa aponta percepção de impactos das bets entre mulheres | Reprodução/Agência Brasil

Para 67% das entrevistadas, as apostas estão “acabando com as famílias brasileiras”, percentual superior ao registrado entre os homens (59%). As mulheres também são maioria na defesa de medidas mais rígidas: 62% apoiam a proibição dos jogos online no país, contra 50% dos homens. A posição é majoritária independentemente da orientação política.
Os dados fazem parte da pesquisa “Mulheres & Bets: O impacto da epidemia de apostas online para as brasileiras e suas famílias”, divulgada nesta segunda-feira (17). O estudo foi realizado pela Clarice, estúdio de pesquisa e projetos criativos sobre mulheres e poder, em parceria com a Estratégia Latina e o Ideia.
“Quando o Brasil pensa em bets, a imagem que sempre aparece é masculina, mas as mulheres têm um papel fundamental diante deste fenômeno que as atinge, mesmo quando elas não jogam. Onde tem aposta, tem uma mulher pagando a conta”, aponta Mariana Ribeiro, cofundadora e codiretora da Clarice.
“A perspectiva das mulheres é a única por meio da qual se vê a crise inteira. Sem escutá-las, não é possível medir o tamanho real do problema. Nenhuma estratégia de resposta será eficaz sem considerar as mulheres e seu papel social”, conclui.
Os dados apontam ainda um cenário de desestruturação familiar, impactos na saúde mental, superendividamento e episódios de violência relacionados às apostas, com efeitos mais acentuados entre as classes D e E.
“As bets jogam com dois imaginários muito fortes. Elas seduzem pela promessa de vida digna - a conta paga, a mesa farta, o presente para os filhos - e também pelo lado cuidado, papel historicamente atribuído às mulheres. A casa, o principal lugar em que a influência feminina é plenamente exercida, acaba capturada pela armadilha", destaca Beatriz Della Costa, fundadora e codiretora da Clarice.
Bets, política e violência
A rejeição às apostas online também aparece entre eleitores de diferentes espectros políticos. Segundo a pesquisa, 62% dos eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e 56% dos eleitores do senador Flávio Bolsonaro (PL) são favoráveis ao banimento das bets.
Outro dado que chama atenção é que 23% dos entrevistados afirmam conhecer ou ter presenciado alguma situação em que as apostas contribuíram para episódios de violência dentro da família.
A pesquisa também mapeou medidas que os brasileiros apoiam para conter o avanço das bets. O apoio à proibição das casas de apostas é majoritário, com 56% de adesão, novamente impulsionado pelas mulheres.
Entre as medidas apresentadas aos entrevistados, 45% apoiam o bloqueio do Pix para apostas de pessoas que recebem benefícios sociais. Outros 33% demonstram interesse em um canal anônimo de apoio — percentual que chega a 57% entre aqueles que apostam com frequência.
O estudo também alerta para o desconhecimento de políticas já existentes. Cerca de 70% dos brasileiros nunca ouviram falar do sistema de autoexclusão criado pelo governo federal. A falta de conhecimento é ainda maior entre mulheres das classes D e E.
As entrevistas qualitativas foram realizadas entre junho e agosto e ouviram 60 pessoas, principalmente mulheres de 18 a 58 anos das classes C, D e E, nas regiões Sudeste e Nordeste. Na etapa quantitativa, foram entrevistados 2.008 mulheres e homens de todo o país, entre 8 e 9 de julho. A amostra seguiu a distribuição da população brasileira de acordo com o Censo 2022 e a Pnad 2025. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
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