Você precisa enxergar os outros como inferiores para se sentir superior? Tem certeza?
Janeiro é um mês “parado”, fevereiro quase não conta, e o ano só começa depois do Carnaval. Quem nunca ouviu isso? Essa ideia circula como se descrevesse uma experiência nacional compartilhada. Na prática, ela não descreve o Brasil, mas um recorte social específico.
Todo início de ano, essa narrativa é repetida em colunas econômicas, discursos corporativos e até em análises políticas falando em “baixo ritmo produtivo”, ignorando setores inteiros da economia, que intensificam suas atividades nesse período. O país não desacelera de forma homogênea, ele redistribui o esforço. Enquanto alguns suspendem agendas, outros entram em jornadas ampliadas para sustentar o funcionamento do consumo, do turismo e dos serviços.
O controle do tempo e a máquina que não desacelera
Férias não significam apenas ausência de trabalho, mas representam controle sobre o próprio tempo, algo profundamente desigual em sociedades marcadas por abismos sociais. O historiador britânico Edward Thompson demonstrou com precisão como a disciplina do trabalho moderno se estruturou justamente pela expropriação do tempo vivido, transformando-o em tempo produtivo mensurável. Quem não controla o próprio tempo não controla sequer o ritmo da própria vida. Nesse sentido, o descanso não é apenas um benefício trabalhista, mas um indicador direto de posição social.
Esse “sequestro do tempo” se torna evidente quando olhamos os dados. Informações da PNAD Contínua (IBGE) indicam que cerca de 38% da população ocupada no Brasil atua na informalidade, percentual que ultrapassa os 45% nos setores de serviços, comércio e turismo. Para essas pessoas, o tempo não é negociável, mas uma obrigação contínua.
Complementarmente, dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) mostram que trabalhadores do setor de serviços estão entre os que mais trabalham em domingos, feriados e períodos de alta temporada, com jornadas frequentemente superiores a 44 horas semanais. O lazer de alta temporada depende de vínculos frágeis e baixos salários, como apontam estudos do IPEA sobre o crescimento da rotatividade no turismo sazonal. A máquina que produz o descanso de muitos não desacelera, porque foi projetada para funcionar sem reconhecimento público, sem rosto e sem interrupções morais.
Presença física, invisibilidade e desrespeito moral
O funcionamento do verão brasileiro revela, assim, um paradoxo central: o trabalhador está fisicamente presente em todos os espaços do lazer, mas permanece simbolicamente invisível. Ele serve mesas, limpa quartos e garante o funcionamento do turismo sem ser reconhecido como parte da experiência social.
Essa invisibilidade não é um acidente, mas um mecanismo que protege o conforto de quem descansa. Georg Simmel, sociólogo e filósofo alemão, observou que a invisibilidade social não atinge apenas quem está distante, mas sobretudo quem está “próximo demais”. Aquilo que se torna parte constante do cotidiano perde força moral e deixa de ser percebido como problema; o outro se dissolve na paisagem social. Quando o trabalhador se torna tão integrado ao funcionamento do mundo, sua presença já não convoca reconhecimento, empatia ou reflexão ética.
Esse apagamento deve ser compreendido como uma negação de reconhecimento. Axel Honneth, filósofo e sociólogo alemão, descreveu como a ausência de reconhecimento social constitui uma forma profunda de desrespeito moral. Não ser visto como sujeito, mas apenas como meio, produz feridas psíquicas que não se expressam apenas em sofrimento individual, mas na erosão silenciosa da dignidade.
O país das castas: desigualdade naturalizada
Essa dinâmica sustenta o que podemos chamar de um “país de castas”. O uso da palavra não é retórico; descreve um modo de organização social em que a desigualdade deixa de ser percebida como injustiça e passa a ser vivida como ordem natural.
Não se trata de castas formais, mas de castas funcionais modernas, organizadas pelo mercado e pela ideologia da meritocracia. Pierre Bourdieu, sociólogo francês, explicou como a dominação se perpetua quando as estruturas sociais são internalizadas como legítimas, naturais e inevitáveis. O desprezo não precisa ser declarado, pois se manifesta na indiferença. O trabalhador invisível é considerado “normalmente inferior”, alguém cuja função é servir e desaparecer do campo simbólico.
Essa lógica dialoga diretamente com o pensamento de Louis Dumont, antropólogo francês, que analisou sociedades de castas demonstrando como a hierarquia se sustenta menos pela violência direta e mais pela aceitação simbólica das diferenças como naturais, necessárias e moralmente justificáveis.
A psicologia da superioridade e a anestesia moral
Do ponto de vista psicológico, essa organização social atende a uma necessidade profunda. Erich Fromm, psicanalista e filósofo social alemão, alertava que sociedades profundamente desiguais tendem a produzir formas silenciosas de autoritarismo psíquico: muitos só conseguem sustentar uma imagem positiva de si mesmos se houver alguém em posição inferior. A sensação de superioridade não existe no vazio, ela depende da comparação hierárquica.
Reconhecer a igualdade do trabalhador invisível (e até do ser humano) exigiria admitir que o privilégio não é mérito absoluto, mas resultado de uma engrenagem desigual. Para evitar esse desconforto moral, a mente prefere normalizar o cenário. Como observou Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, a indiferença contemporânea não nasce necessariamente da crueldade explícita, mas da fragilidade dos vínculos e da recusa em assumir responsabilidades, que perturbem o conforto pessoal. Cria-se uma anestesia moral onde a presença do outro não gera demanda ética. O outro é “coisificado”, utilizado e descartado, ou desconectado.
Um desconforto necessário
Descansar é direito, e desejar férias agradáveis é legítimo. Imaginar que esse direito seja universal, contudo, é não enxergar a realidade. Tornar visível o trabalho invisível não impede ninguém de aproveitar o descanso, mas rompe a anestesia moral, que sustenta uma sociedade hierarquizada, elitista e profundamente preconceituosa.
Enquanto continuarmos repetindo a ideia de que “o país para”, seguiremos ocultando quem mantém tudo funcionando. Questionar o país das castas não é recusar, nem, muito mesmo, desvalorizar o descanso, mas reconhecer que ele só existe porque outros não podem tê-lo, e às vezes, jamais terão.
Psicólogo Sergio Manzione - Crédito: Divulgação

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