sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Como os passageiros do voo da Chapecoense sobreviveram a um impacto tão forte?

Na madrugada (horário de Brasília), da última terça-feira (29), um avião que levava a equipe da Chapecoense para disputar o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, em Medellín, na Colômbia, caiu em uma região montanhosa de Cerro Gordo, em La Unión, caracterizando a maior tragédia do mundo esportivo.

De acordo últimos relatos da Aeronáutica, o acidente, que matou 75 pessoas – a maior parte delas membros da equipe de Chapecó, SC – teria ocorrido em razão da falta de combustível. Embora maiores detalhes da investigação ainda possam demorar algum tempo para serem revelados, o fato é que o número de sobreviventes levanta algumas questões importantes sobre como algumas pessoas foram capazes de sobreviver a um desastre tão devastador.

De acordo com um artigo escrito por Graham Braithwaite, para a The Conversation, acidentes aéreos, especialmente os que envolvem aviões a jato, são cada vez mais raros. Segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo, em 2015, o mundo viu um acidente para cada 3,1 milhões de voos. Essa é considerada uma conquista espetacular, especialmente para a indústria da aviação, que com pouco mais de um século de existência, criou um meio de transporte seguro mesmo em velocidades, altitudes e ambientes que podem ser desafiadores.

O que determina o potencial de sobrevivência dos passageiros?
O primeiro fator a ser considerado é a verdadeira possibilidade de haver sobreviventes. Embora possa parecer uma ideia simples, realmente existem desastres improváveis de resultar em feridos. Os acidentes mais fatais tendem a ser aqueles em que há uma perda catastrófica de controle da aeronave ou quando o impacto ocorre em alta velocidade.

Por exemplo, em 2009, um avião da Air France caiu no Atlântico após uma “perda de controle de voo”, logo, as chances de haver sobreviventes eram praticamente nulas, uma vez que ninguém poderia ter resistido ao pesado impacto com o mar. Em contraste a isso, em 1989, um modelo DC-10 da United Airlines, perdeu o controle de todos os sistemas hidráulicos a bordo, o que deveria resultar no total descontrole do avião. No entanto, em uma ação heroica realizada pela tripulação, a aeronave foi guiada apenas pelo impulso dos motores, resultando na sobrevivência de 185 pessoas das 296 a bordo.

Acidentes que ocorrem durante o voo de cruzeiro – quando o avião está em sua altitude máxima – bem como os que envolvem uma colisão com o solo em voo controlado, tendem a ter menos sobreviventes. Esses geralmente ocorrem quando a tripulação sequer está ciente de um problema, quando a aeronave está em alta velocidade, e os passageiros não estão preparados para o acidente. Nesses casos, quando a chance de sobrevivência é rara, os sobreviventes podem ser considerados tão sortudos quanto uma pessoa caindo do céu que é capturada com vida por uma árvore.

Curiosamente, este foi o caso em um acidente que ocorreu em 1985, envolvendo um Boeing 747, que matou 520 pessoas e deixou apenas quatro sobreviventes. Durante o evento, o avião atingiu uma montanha após a separação de sua cauda.

Melhorias nos sistemas de aviação
De acordo com o Conselho Europeu de Segurança dos Transportes, estima-se que 90% dos acidentes com aeronaves possam ter sobreviventes – algo que não corresponde necessariamente às expectativas do público. Essa alta taxa deve-se a melhorias em relação à resistência de choques da fuselagem (a ciência de tornar estruturas mais capazes de lidar com impactos), ao ambiente da cabine e o treinamento da tripulação.

Ainda, os materiais utilizados hoje são menos inflamáveis, os assentos são mais capazes de suportar impactos, e sistemas de supressão de incêndio são mais eficazes, as vias de saída são mais claramente marcadas e melhores concebidas para permitir o fluxo rápido de passageiros.

Cada uma dessas melhorias foi baseada em investigações realizadas em acidentes aéreos anteriores, bem como oriundas de normas reguladoras de segurança que as próprias fabricantes criam. No entanto, os fatores que afetam as chances de sobrevivência são variados. Em acidentes com um problema identificado de antemão, os de cintos de segurança, a adoção de uma posição adequada e uso correto das saídas de emergência são conhecidos por terem efeito sobre a questão.

Fatores externos também podem contribuir. Atualmente, existem normas de planejamento rigorosas sobre a remoção de obstáculos ao redor dos aeroportos, além de terem que garantir que o serviço de bombeiros do aeroporto possa chegar em apenas três minutos dentro do aeródromo. Isso ajudou a aumentar o número de sobreviventes quando não há incêndios subsequentes ao impacto.

Prevenção ainda é a melhor resposta
Vale apena lembrar que os passageiros devem ficar atentos às roupas e calçados escolhidos, que devem ser adequados para qualquer eventualidade. Mais uma vez, é essencial ouvir com atenção as recomendações passadas pela tripulação, pois ela tem a intenção de oferecer um serviço de qualidade e passar informações que poderão salvar vidas.

Histórico do modelo BAe 146
Fabricado pela British Aerospace, o avião que levava a equipe da Chapecoense, era um dos 220 modelos ainda em operação. Considerada uma aeronave para curtas distâncias, ela é tida como segura e apropriada por pilotos que estão mais acostumados com aeroportos de pistas curtas, uma vez que são mais pode executar aproximações mais íngremes.

De acordo com a empresa de aviação LaMia, responsável pelo voo em questão, o modelo, que pode carregar até 100 passageiros, é capaz de percorrer distâncias máximas de quase 3.000 quilômetros – o aproximado entre a cidade Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, de onde decolou, até Medellín, na Colômbia, onde estava previsto o pouso.

Antes do evento catastrófico atual, o pior acidente envolvendo um modelo BAe 146 ocorreu em 1987, quando um voo que saia de Los Angeles para San Francisco, EUA, foi sequestrado por um ex-funcionário da Força Aérea dos EUA. No processo, ele matou os pilotos e fez com que a aeronave caísse em Cayucos, na Califórnia, matando todas as 43 pessoas a bordo.

Mais recentemente, em abril de 2014, um BAe 146 que levava 97 pessoas a bordo teve que realizar um pouso de emergência, após sair de Perth, na Austrália, após uma das turbinas pegar fogo. Neste caso, todos os passageiros sobreviveram sem ferimentos. [ Hyper Science ] [ Fotos: Reprodução / Hyper Science ]

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