247 – Um dos criadores das revistas Veja e Exame, José Roberto Guzzo é hoje membro do conselho editorial da Editora Abril e o jornalista mais próximo do dono Roberto Civita. Neste fim de semana, ele publica uma dura coluna intitulada “Ratos e Homens”, em que fala do plano que Lula tinha ao nomear Joaquim Barbosa para o Supremo Tribunal Federal – e que deu errado. Leia:"Ratos e homens", por J.R. Guzzo
Quando o ex-presidente Lula indicou o nome do procurador Joaquim Barbosa para o Supremo Tribunal Federal, em 2003, aplaudiu a si mesmo por mais esse lance da genialidade política que lhe é atribuída.
Tornava-se, com isso, “o primeiro presidente deste país” a levar um negro à mais alta corte de Justiça do Brasil – o que não é bem assim, pois antes de Barbosa o STF teve dois ministros mulatos, já esquecidos na bruma dos tempos.
Mas o que vale nas coisas da política, em geral, é o que se diz – e o que se disse ali é que havia um plano magistral.
O novo ministro, agradecido pela honra recebida, seria um belo amigo do governo nas horas difíceis. Acontece que os melhores planos, muitas vezes, não acabam em bons resultados; o que decide tudo, no fim das contas, são os azares da vida.
O grande problema para Lula foi que o único negro disponível para ocupar o cargo era Joaquim Barbosa – e ali estava, possivelmente, uma das pessoas menos indicadas para fazer o que esperavam dele.
Para começo de conversa, Barbosa dá a impressão de detestar, positivamente, o rótulo de primeiro “ministro negro” do STF.
Não quer que pensem que está lá para preencher alguma espécie de “cota”; a única razão de sua presença no STF, julga o ministro, são seus méritos de jurista, adquiridos em anos de trabalho duríssimo e sem a ajuda de ninguém. Nunca precisou de ajuda da “comunidade negra”, nem da secretaria de igualdade racial, ou coisa que o valha. Também não parece se impressionar, nem um pouco, com gente de origem humilde.
É filho de um pedreiro do interior de Minas Gerais, tornou-se arrimo de família na adolescência e ao contrário de Lula, que não bate ponto desde que virou líder sindical, em 1975, Barbosa começou a trabalhar aos 16 anos de idade e não parou até hoje. O ministro, além disso, é homem de personalidade notoriamente difícil, sujeita a ásperas mudanças de humor e estoques perigosamente baixos de paciência.
É atormentado por uma hérnia de disco que lhe causa dores cruéis e o obriga muitas vezes a ficar de pé durante as sessões do STF. É, em suma, o tipo de pessoa que se deve tratar com cuidado.