Desde 2009 surgem histórias de pacientes soropositivos que se mantiveram saudáveis anos após deixar os antirretrovirais; o que explica o fenômeno, e por que ainda não se trata de uma solução definitiva para a doença

Este mês faz oito anos que um alemão sexagenário diagnosticado com o HIV (paciente que a literatura científica apelida de “B2”) deixou de tomar seus antirretrovirais. Ninguém aqui esqueceu o alarme do remédio desligado. “B2” (ou “Berlin 2”) é um dos 13 pacientes que alcançaram a remissão a longo prazo do HIV, tendo a descontinuação do tratamento tendo sido programada e acompanhada por uma equipe de profissionais. Fonte: Globo
Hoje, ele vive uma vida divorciada da infecção, sem sinais rastreáveis do vírus. “Ele não toma qualquer medicamento que não seja alguns multivitamínicos”, diz à GQ Brasil Christian Gaebler, pesquisador e médico imunologista da Charité-Universitätsmedizin Berlin, autor do estudo publicado em dezembro a respeito do caso.
Oito anos é bastante tempo para o vírus da aids desaparecer do corpo. “Realizamos um teste clínico recente em que pedimos para alguns outros voluntários pararem de tomar antirretrovirais, de forma muito controlada. Dentro de uma semana, o vírus já voltava”, diz.
Mas Gaebler e outros cientistas envolvidos nestes casos falam com cautela, sem alardear uma “cura da aids”. Por bons motivos: a enfermidade ainda é um quadro complexo, o HIV, um vírus resiliente que realiza mutações de forma acelerada. Não há tratamento definitivo e universal, muito embora avanços notáveis permitam uma vida normal para muitos soropositivos.
Pesa também o fato de todas as 13 histórias de sucesso se concentrarem em uma população reduzida de pacientes. Desde o caso inaugural em 2009, do também alemão Timothy Brown (o primeiro “paciente de Berlim”), todos são pessoas soropositivas que, por motivos de saúde posterior, receberam transplantes de medula ou células-tronco do sangue. Seus doadores eram dotados de uma mutação específica, que põe fim à produção da proteína CCR5 no organismo. Sem ela, some uma das portas de entrada do vírus do HIV nas células e a infecção é interrompida.
“Historicamente, acreditava-se que esta mutação era o principal mecanismo, mas acontece que não é o único”, explica Gaebler. Seu comentário tem a ver com a experiência acompanhando “B2”, o segundo paciente de Berlim, que tratou de uma leucemia em 2015 por meio de um transplante de células-tronco. A doadora escolhida pela equipe médica e compatível com “B2” não representava uma solução à prova de balas. Ela era heterozigoto para a tão importante mutação: suas células ainda acarretavam alguma produção reduzida da CCR5 no organismo. É diferente da mutação homozigoto, que representa a eliminação total da proteína no sistema.
“Se seu organismo não é resistente, ele tem que encontrar formas de controlar o vírus para chegar à remissão, correto? Uma delas é, caso ele seja reativado, encontrar esses novos vírus e eliminá-los. Outra solução é ir atrás dos reservatórios virais de onde ele possa se reativar”, explica o cientista.
Essas reservas são grupos de células já infectadas que abrigam cópias latentes do vírus e são resistentes aos antirretrovirais. “Em nosso caso, acreditamos que o sistema imunológico deste indivíduo somado ao sistema imunológico transplantado por meio dessas células-tronco foram capazes de eliminar os reservatórios com o tempo.”
Ao jornal El País, Javier Martínez-Picado, pesquisador acompanhando outro destes casos, sugere uma resposta possível: “O que aprendemos é que o desaparecimento do reservatório viral não se deve à mutação em si, mas à aloimunidade do doador”. Em outras palavras, a população celular presente no sangue ou medula doados ataca células do paciente que reconhece como estranhas, incluindo aquelas já infectadas e que servem como santuários do HIV.
A história do paciente “B2” reforça que “não é só resistência e mutação que importam”, nas palavras de Gaebler. “Mesmo no caso de um transplante de células-tronco não totalmente resistentes ao HIV, existe uma maneira de alcançar remissão. Para a população soropositiva que nunca venha a sofrer com leucemia, esperamos que possa haver outra forma de chegar ao mesmo resultado.”
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