Por Gustavo Soares | Folhapress
Foto: Agência Brasília

Uma pesquisa de 2022 que será publicada em uma das principais revistas acadêmicas de economia investigou os efeitos da política no mercado de trabalho privado do Brasil e concluiu que empresários brasileiros tendem a contratar, promover e pagar salários mais altos a funcionários alinhados politicamente.
Nos EUA, empresas chegaram a demitir profissionais que fizeram postagens consideradas ofensivas sobre a morte de Kirk, apoiador de Donald Trump que tinha a esquerda como um de seus principais alvos de crítica. No Brasil, uma campanha semelhante, iniciada no X (ex-Twitter) com a participação do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), passou a ser investigada pelo MPT (Ministério Público do Trabalho).
Embora o caso tenha reacendido o debate sobre discriminação política no ambiente de trabalho, a questão é discutida há décadas por economistas.
No estudo intitulado "Politics at Work" (Política no Trabalho) economistas da Universidade de Chicago, da FGV (Fundação Getulio Vargas) e da Northwestern analisaram dados de 87 milhões de trabalhadores e 7,5 milhões de empresas entre 2002 e 2019.
Segundo a pesquisa, um trabalhador filiado ao mesmo partido do patrão tem de 48% a 72% mais chances de ser empregado do que por alguém de outra legenda.
Uma vez contratados, esses profissionais permanecem mais tempo na empresa, sobem mais na hierarquia e recebem salários maiores: o prêmio salarial chega a 3,8% para gestores, 3,4% para cargos administrativos e 1,5% para operários, em comparação com colegas sem vínculo partidário.
A pesquisa parte do pressuposto de que empresas privadas tenderiam a ser menos influenciadas por fatores políticos do que instituições públicas e empresas estatais, cujos quadros tradicionalmente se alteram conforme a mudança de governo.
A expectativa era de que a lógica de mercado pudesse servir de barreira contra esse tipo de viés. Os resultados, no entanto, mostram que a política também pesa no setor privado, e ainda mais do que critérios como gênero e raça na definição de contratações, promoções e salários.
Para os autores, um dos efeitos é que as chamadas câmaras de eco das redes sociais -quando uma visão de mundo é reforçada pela proximidade de pessoas com visões semelhantes- também podem se manifestar no espaço de trabalho.
"Nossos resultados levantam a possibilidade de que donos de empresas estejam dispostos a abrir mão de crescimento para manter uma força de trabalho ideologicamente alinhada", afirmam os autores.
O artigo de coautoria do pesquisador da FGV Valdemar Rodrigues de Pinho Neto também aponta como evidência a estimativa de que empregados de partidos rivais aos do empresário sofrem penalidades salariais e menores chances de promoção.
O fenômeno é descrito pelos autores como "assortative matching", ou "acasalamento preferencial", expressão usada na economia do trabalho para a tendência de indivíduos se associarem a semelhantes.
A pesquisa, aceita para publicação na revista American Economic Review, sugere que a discriminação política ocorre principalmente por preferência dos empresários, e não por troca de favores com partidos ou políticos.
A base de dados do artigo combinou informações da Rais (Relação de Anual de Informações Sociais), da Receita Federal, do CNE (Cadastro Nacional de Empresas) e registros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para elaborar um painel relacionando empregado, empresa, dono e partido ao longo dos anos.
As empresas brasileiras são proibidas por lei de demitir funcionário por expressar opinião política nas redes sociais ou fora delas, desde que não haja incitação a crime ou violência.
A prática, prevista na lei 9.029, de 1995, é conhecida como dispensa discriminatória e pode levar a condenações na Justiça do Trabalho, como reintegração do profissional; multa no valor de duas vezes o salário pelo período em que ele ficar afastado, mais juros e correção monetária; e indenização por dano moral.
O MPT afirma que, desde 2022, intensificou a atuação contra assédio eleitoral, com o crescimento de denúncias sobre esse tipo de comportamento por parte de empregadores, e, desde então, tem estado atento a questões relacionadas à política no ambiente de trabalho.
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