terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Um ministério sem nenhum mistério

REDAÇÃO ÉPOCA
TUDO VELHO
A presidente Dilma durante entrevista. Ela parece não ter percebido que o cenário mudou (Foto: Sérgio Lima/Folhapress)

Apesar de ter prometido, dias antes, um “pacto nacional contra a corrupção”, a presidenteDilma Rousseff chegou ao final do ano fazendo o jogo do fisiologismo. Entraram no governo velhos craques da base aliada. É o caso do deputado Eliseu Padilha, do PMDB, na Secretaria de Aviação Civil, e, entre outros, do governador do Ceará, Cid Gomes, do Pros, no Ministério da Educação. Houve espaço para uma revelação: Helder Barbalho, fillho e herdeiro político de Jader Barbalho, do PMDB, será, aos 35 anos, ministro da Pesca.

As nomeações, feitas como de costume, demonstram que Dilma decidiu ignorar os sinais de que a Lava Jato deverá melar o jogo político habitual. Em vez de compor uma equipe ministerial técnica e romper com o “toma lá dá cá” na raiz da corrupção, Dilma capitulou. À luz do que foi o ano de 2014, é uma decisão temerária. À luz do que 2015 promete ser, talvez se revele uma decisão desastrosa.

Os lances que antecederam o anúncio já mostravam que não vinha coisa boa. Dilma chegou a afirmar publicamente que consultaria o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sobre os nomes escolhidos por ela para compor o ministério. Somente ele, afirmou Dilma, poderia esclarecer se os políticos têm ficha limpa. Não era troça. Em tempos de petrolão, com novas delações a cada semana, ninguém mais sabe, em Brasília, onde encontrar pessoas públicas acima de qualquer suspeita. Nem a presidente da República.

Janot nem precisou declinar do convite de fiador de ministros. Os depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, que põem sob suspeita dezenas de políticos que só podem ser julgados em tribunais superiores, estão sob segredo de Justiça. Ninguém – nem Dilma – pode ter acesso a eles. Janot e sua equipe ainda analisam os fatos narrados contra cada político, assim como, em alguns casos, as provas materiais (documentos, e-mails, planilhas, extratos bancários) entregues pelos delatores.Ele apresentará pedidos de investigação no Supremo Tribunal Federal somente nos casos em que julgar consistentes as evidências. Isso deverá ocorrer em fevereiro. Antes disso, não poderá limpar a barra de ninguém. Nem a pedido da presidente.

A estranha tentativa de Dilma sublinha mais uma vez, em tintas caricatas, sua dificuldade em fazer política. A esta altura do calendário político, faltando uma semana para a posse, o novo ministério deveria ser inteiramente conhecido. Dilma, sendo Dilma, procrastinou quanto pôde. Convenha-se, em favor dela, que a mão de obra insuspeita e qualificada em Brasília anda escassa. Com a Polícia Federal nas ruas e o Ministério Público em ação, é difícil encontrar na base aliada (e mesmo alhures) um político por quem se possa pôr a mão no fogo. Após décadas de fisiologismo, a paisagem ética ao redor da Esplanada é de lunar devastação.

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